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Tudo que perdemos

A trágica morte de Rodrigo Rodrigues nos rouba luz e talento em mais um passo no caminho de arrancar nossa humanidade

Rodrigo Rodrigues: 1975-2020 (Foto: Reprodução)

Rodrigo Rodrigues era efervescência. E sempre seria assim, porque é assim sempre que alguém está além dos limites pré-estabelecidos. A inquietude cultural e intelectual não é uma opção que alguém assume na vida, é a única opção para quem está fora do modelo concebido e aprovado. Personalidades assim não podem evitar empurrar as barreiras mesquinhas que estão colocadas.

Na comunicação, na música, nos livros, Rodrigo foi um sujeito notável. É necessário pontuar isso sempre que possível.

Mas eu não conheci o Rodrigo, portanto a tristeza vem também com culpa. A culpa por estar gastando o luto e a aflição de tantos amigos que ele fez no jornalismo e na vida. Com tanta gente mais capacitada para exaltar o Rodrigo, esse texto é até egoísta. Quero deixar um beijo a todos que o conheceram e aos que não, mas também se sentem um pouco órfãos da luz que emanava que te fazia querer, mais do que assistir o Rodrigo, ser amigo dele.

O que nenhum de nós, os que conheciam RR ou não, aguenta mais é perder. Porque perdemos demais, perdemos muito mais que suportamos nos últimos meses. Perdemos gente, perdemos amores, perdemos desejos. Nós aqui, vivos, perdemos vida em todos os cantos e em todas as partes. Perdemos brilho e ganhamos breu em plena luz do sol.

A sensação de egoísmo é geral, porque sofremos pelos que não conhecemos. Choramos pelas famílias quebradas, pelas amizades interrompidas, projetos que jamais virão à tona. O luto é pelo que amamos e pelo que não se conhece ou pelo que jamais ganhará contornos reais.

O luto pelo que não há é a história perfeita do período que tentamos encarar e que a cada dia mais desfere um ou outro golpe em nossos rostos já resignados. Lutamos contra a extinção do mero direito de ter esperança.

Navegamos em meio a tudo isso tentando desmistificar a podridão que nos habita e pastoreia um rebanho sem reação rumo ao nada, rumo ao buraco que nem sequer podemos chamar de precipício. O precipício é fácil demais, porque você sabe o que te espera do outro lado e quando te espera. O nosso buraco, aquele para onde nos levam, é um vácuo. Não se sabe o que há na outra ponta, não se sabe se é possível atravessar ou quanto tempo levará.

É muito mais cruel assim, sem saber o que pode ser. Cada passo a mais dentro do vácuo é um tiro de misericórdia na esperança que não nos permite sentir sem sentir.

Se sentimos dor por quem amamos, sequer podemos nos reservar o direito de um luto decente, porque o luto, hoje, é geral. Se choramos por humanidade pelos que se foram e se vão aos montes, mas que não conhecemos, o sentimento é esse, do egoísmo, por piratear a dor do próximo. Se tentamos desviar o olhar por alguns momentos, buscando alguma fresta de claridade ao redor e perdemos a possibilidade de chorar mais um pouco pelo novo desastre que se abate, a sensação de culpa volta, aponta o dedo. Olhar para o lado é irremissível, quem você pensa que é.

Estamos condenados a perder, perder e perder enquanto a Era dos Delírios é defendida por fieis soldados agressores de moinhos. Não sabemos como agir quando somos o moinho e nos vemos ameaçados ao mesmo tempo em que a fidelidade dos guardas da loucura serve também para levá-los à beira do escuro.

No fim, estamos todos na mesma barca. E é a de Caronte.

Tudo que perdemos é apenas um requinte da crueldade que tem, como plano derradeiro, roubar-nos de nós mesmos no passo a passo do que nos torna humanos. Malditos tempos.

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