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Ninguém teve mais pano passado no BBB20 do que Manu Gavassi

Manu Gavassi não é quem mais erra no BBB20, mas parece ser a única participante na qual nada de ruim gruda. E ela, humana, erra bastante

Manu Gavassi (Foto: Reprodução/Globo)

É normal que após este texto alguém tenha o reflexo de pensar ‘Ai, Pedro, disfarça sua torcida pro Prior’, mas a realidade é que minha torcida não está depositada em Felipe Prior. E ainda que estivesse, tudo bem, porque no jornalismo a gente aprende – ou deveria, ao menos – a se descolar das paixões que formou ao longo da vida para fazer reflexões. Prefiro, confesso, que Prior permaneça no jogo puramente por uma questão de entretenimento e vigor da brincadeira, mas não vou gastar 1s do meu tempo para votar nesta terça-feira. Vote em quem você quiser, caso queira.

Este texto não é sobre isso.

A direção do texto é bem explicada por sua manchete: ninguém nesta 20ª edição do Big Brother Brasil teve mais pano passado do que Manu Gavassi. E só isso, o assunto é esse.

Acho importante frisar, inclusive, que acho a cantora uma artista de altíssimo nível, a quem escuto há anos. Como artista, Manu é criativa, fora do convencional e camaleão dentro do próprio estilo. O pop de papel da adolescência era divertidíssimo, o álbum ‘Vício’ (2015), mais adulto, é um dos melhores álbuns de pop do Brasil na última década e a atual fase experimental é uma delícia, assim como os roteiros curtos que escreve para séries no YouTube. Quando elogio Manu não é para fazer média. Mas em frente.

Manu é uma pessoa horrível, intragável e de caráter duvidoso? Não acho que seja por aí. O texto não se trata de uma demolição da cantora, nem perto. É claro que Manu não tem os claros problemas de Marcela, Gizelly, Ivy ou Hadybala. Nem mesmo os de Prior, que também não é um ser humano tão duvidoso quanto esses outros, mas tem seus muitos e sérios defeitos. Independente de mais ou menos palatáveis, todos os personagens do reality foram responsabilizados pelos próprios atos. Manu, não. Manu, jamais.

Vamos a alguns exemplos:

  • Foi dela uma das falas mais preconceituosas do BBB20

Marcela e Ivy repetem inúmeras vezes que têm medo de Babu, o que é absolutamente injustificável, um caso clássico do desumanização do homem negro. Existe um enorme capítulo sobre isso no livro de regras do racismo; Ivy ainda teve outra pérola de puro preconceito e psicopatia ao falar do pente garfo de Babu. Todas essas foram graves e piores que a de Manu no contexto do escanteamento imposto a Babu há longas semanas pela autoproclamada Comunidade Hippie, da qual todos os membros participaram.

Mas isolemos cada uma delas. Manu não mediu palavras para afirmar que casais de mesma cor de pele, como Marcela e Daniel, são “esteticamente mais agradáveis” de olhar. Nem sequer creio que preciso me alongar em explicar onde está o erro. Enquanto Marcela sorria o sorriso mais largo da burguesia classicista aberta a qualquer maneira de ouvir sobre sua superioridade frente ao restante dos meros mortais, Rafa Kalimann estava claramente constrangida ao lado da amiga.

Estou chamando Manu Gavassi de racista? Ora, Manu é branca, assim como eu sou. Brancos são eternamente racistas em desconstrução ou em putrefação. Ontem, hoje e sempre. Apesar de ser, sim, a demonstração de um traço muito problemático e gravíssimo de conduta, é evidente que ela não respira preconceito, como faz Ivy, por exemplo. Igualar as duas seria falsa simetria descarada.

Há fandons de jogo sujo que repetem o clipe a todo momento, mas excluamos fandons de internet e falemos de gente de verdade: é muito claro que a situação não pegou nela. Ninguém parece muito motivado a cobrar postura. Por quê? Ok, passemos.

  • No português claro, Manu caga na cabeça dos outros

A conversa com Mari no pós-Jogo da Discórdia da última segunda-feira (30) foi somente mais um exemplo de como Gavassi demonstra total desprezo por quem pede sua atenção quando ela está meramente a fim de não estar ali. A única forma de classificar a forma como tratou a ex-panicat é essa: desprezo. Mari tenta conversar com sensibilidade – aliás, essas conversas pós-treta são os melhores momentos de Mari Gonzalez no programa. O vídeo está abaixo, e as conclusões podem ficar para vocês próprios. É importante dizer: não é a primeira, a segunda ou a terceira vez que Manu faz isso com algum companheiro de confinamento.

  • A facilidade para segregar

“Talvez eu faça isso pra doer menos quando votar”, foi algo que a própria Manu já admitiu sobre bloquear coabitantes. Ela sabe, apontada por Flayslane há algumas semanas, que deixa de reconhecer a existência de outras pessoas sempre que é conveniente. Ela não é a única a fazer, claro, mas é dela que estamos falando. Durante a totalidade do programa, Manu não excluiu menos que Marcela ou Gizelly. Pode ter excluído pessoas diferentes e em momentos distintos, mas não menos. Não falo de Hadybala ou Lucas Gallina, naturalmente, porque ali havia uma distância impossível de ser superada e até compreensível. Mas de Boca Rosa, Flayslane, Mari, Guilherme e, de forma mais agressiva, Babu.

Basicamente qualquer pessoa que acompanha o BBB20 com dois olhos em vez do fígado sabe que, ao contrário do que juram de pés juntos os membros do Grupão, a atitude mais combativa de Babu foi consequência, não causa, do movimento excludente que sofreu.

É ao menos estranho que alguém que diga ter tanta dificuldade de se encaixar em grupos, como ela afirmou diversas vezes, tenha enraizado tão bem a capacidade de quase seitas para segregar quem pensa, age ou somente é diferente.

  • A incapacidade de observar comportamentos problemáticos

Existe muita gente que conta com dificuldade para observar problemas sérios no próprio espelho, mas que tem ótimo discernimento para entender coisas que acontecem a sua volta. Por mais que nos últimos dias Manu, impulsionada por Rafa, tenha apontado certos problemas com Marcela e sua squad, ela própria disse menos de uma semana atrás que a casa ficou com apenas “mulheres fodas”. Entre elas, claro, Marcela e Ivy.

Mesmo após Prior apontar a frase dita por Gizelly há duas semanas, sobre algumas pessoas poderem ser descartadas da briga por serem ricas, Manu não quis acreditar em Rafa, que bancava a veracidade. Thelma precisou confirmar tudo para a cantora acreditar.

É óbvio que Manu é muito inteligente – ninguém escreve com tanta habilidade sem ser bastante inteligente. Então por que não percebe traços tão escancarados da convivência? Por que tanta vontade de se enganar sobre as pessoas que estão perto dela, mesmo depois de ter percebido que há, nelas, incongruências sérias?

  • O desrespeito com a inteligência do público

Manu Gavassi vez ou outra trata a eliminação da escrete de boys lixo, no começo do programa, como algo histórico. E é mesmo, uma pauta seríssima foi colocada a um grande público, que entendeu do que aquilo se tratava e julgou da forma que Manu gostaria que fosse julgado. Naquele momento, o público era maravilhoso.

Nas últimas semanas, há um movimento de membros do Grupão de repetir que não querem ficar na casa na hipótese do grande público enxergar Babu ou Prior como protagonistas do jogo. Pyong e Daniel falaram isso abertamente e foram eliminados na sequência; Marcela e Ivy também falaram e, arrisco dizer, só poderiam se salvar num paredão hoje se disputassem uma contra a outra. Por que a opinião do público era maravilhosa quando compartilhava sua visão de mundo e pode ser descartada quando discorda de você?

É um clássico e insuportável caso de ‘se a realidade não concorda comigo, então há algum problema com a realidade’.

  • A soberba 24/7

O grande Chico Barney, colunista do Portal Uol, popularizou dois termos fantásticos para definir Manu: régua sensata e chefão de fase. Há três meses que a cantora é uma das figuras que mais repetem que fulano ou beltrano melhoraram ou pioraram. Mas melhoraram segundo quem? Com que direito se faz esse julgamento? Que arrogância é essa? Vê-la fazendo tal julgamento com relação a Babu, rejeitado desde as primeiras semanas, é bastante incômodo. É aí que entram as alcunhas apontadas no começo do parágrafo: Manu se coloca como régua moral. A melhora significa, muito claramente, que alguém está mais palatável para si próprio.

É justo que você seja amigo ou desafeto das pessoas baseadas em como elas agem no dia a dia e o quão parecidas com você elas são, claro, mas isso não te dá o direito de decretar setas morais para cima ou para baixo. Manu é uma pessoa errática como qualquer outra do reality e da vida, mas fala e age como verdadeiro membro do Cume Moral e com a absoluta certeza de estar acima dos demais no jogo de RPG da realidade. Mas não está no ponto mais alto da escalada. É tão humana quanto qualquer outro.

A soberba é tão densa que pode ser cortada com um canivete.

————————————————————————————————————–

De novo, pela enésima vez neste texto: Manu Gavassi não é uma pessoa horrível. Não é podre de alma, não é mau-caráter, nada disso. A reação dela ao acreditar em Marcela no começo do programa, no momento do contra-ataque aos trastes do Teste de Fidelidade, a forma como comandou as conversas na noite da entrada dos egressos da Casa de Vidro e até o comportamento mais humano na saída do Quarto Branco foram demonstrações dos melhores lados, pelo menos dentro de um jogo do qual ela tende a sair, seja hoje ou campeã no fim do mês, sem ter se permitido a costurar boas histórias.

O que pega de verdade, no fim das contas, não é que Manu erra mais que os outros, mas que escapa das próprias faltas como se nada tivesse acontecido. É verdade que já falou sobre autoconhecimento, mas é necessário tentar entender mais as situações que fogem ao seu dia a dia da vida real. Manu parece saber intelectualmente que esse é o caso, mas daí a estar disposta de verdade a evoluir vai uma distância considerável. Ao se colocar como a régua moral do mundo, atira os próprios erros e defeitos na lupa do público, que mesmo assim parece descartá-los.

Diferente de Boca Rosa, que se equivocava em quase todas as decisões e parecia em paz com o comportamento errático, Manu também se equivoca muito, mas parece se enganar que não é esse o caso. E o público vai na onda.

Não sei se Manu é a Garota Errada, título que deu a uma série de vídeos extremamente bem escritos e divertidos, mas certamente é a Garota de Teflon: nada gruda nela.

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