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‘GloboNews Debate’ copia CNN, mas amplia erro: o de dar voz a ideia inválida

O debate da GloboNews é desnecessário quando se tem alguém com opinião inválida (Foto: Reprodução)

Suponha que, neste domingo (10) em que a Globo exibe mais uma corrida para venerar Ayrton Senna — hoje é a primeira vitória no GP do Brasil, em 1991; semana passada, foi a corrida do primeiro título, no Japão 1988 —, o SporTV resolvesse, em temos de pandemia, promover em seu novíssimo SporTV Debate uma discussão: o que levou à morte de Senna? Um convidado falaria a respeito da queda na pressão de pneus e o outro, sobre a barra de direção daquele carro da Williams. Seria o terceiro um lunático que crê na tese de que Ayrton levou um tiro na cabeça a 300 km/h no contorno da Tamburello?

Suponha que o Multishow queira fazer um programa sobre o papel do humor quando a vida é ficar em casa e como é possível trabalhar este ponto com a delicadeza de quem vive com medo. O primeiro convidado seria um contratado da casa, imitador, já com uma atração criada por ele. O segundo seria aquele que entende que o humor também de dar uma pausa. Seria o terceiro um convidado que acha que o humor não tem limites, dar um jeito de dizer que é só uma gripezinha é de matar, e a vida é assim mesmo?

Suponha que, por fim, o GNT resolva promover uma discussão – válida, inclusive – sobre o papel da imprensa nestes tempos e como ela tem auxiliado e atrapalhado na condução das notícias de forma a mal informar o público. O primeiro convidado seria da direção da própria emissora para explicar a condução do trabalho multiplataforma. O segundo convidado seria um telespectador que assimilou as notícias e têm ponderações interessantes a fazer pró e contra. Seria o terceiro um manifestante que apareceu em reportagens da emissora gritando ‘Globo lixo’ e ameaçando seus repórteres?

Essa história de promover debates em nome da pluralidade – e isso se estende aos jornais que abrem espaço, via colunas, a esta gente debiloide e mau caráter – nem é algo que deveria ser revisto porque a direção destes veículos de comunicação já está bem consciente dos tempos que vivemos e de como as informações hoje se difundem. Quem não lê a publicação ou não vê o programa inteiro vai se alimentar do recorte de quem quer passar a mensagem enviesada: são prints ou vídeos curtos para que o tiozão do WhatsApp e o grupo da família corroborem suas opiniões toscas, devidamente repassadas em progressão geométrica.

O tal ‘GloboNews Debate’ foi criado a reboque do ‘Grande Debate’, da CNN Brasil – que rendeu muito nas duas primeiras semanas por causa de Gabriela Prioli, a ‘jantadora’ de Caio Coppola e Tomás Abduch. No sábado à noite, resolveu que seria interessante reunir dois ex-ministros da Saúde, Humberto Costa (PT) e o recém-demitido Luiz Henrique Mandetta (DEM), com Osmar Terra, deputado aspirante a ministro da Saúde e ex-ministro da Cidadania do governo (?) atual. Mas diferente do programa da CNN, a proposta é ainda pior, porque junta quatro entrevistadores, que fazem uma rodada de perguntas, e não dá direito ao debate propriamente dito, já que os jornalistas não passam a palavra para os demais rebaterem e não necessariamente fazem as mesmas perguntas para ambos.

Daí, a gente ouve de Terra que a quarentena, basicamente, foi a responsável pelas mais de 10 mil mortes – mais os casos que a subnotificação não conta –, que a Suécia é um exemplo a ser seguido, que a pandemia vai passar e que jamais vai chegar até outubro, como prevê Mandetta, que o pânico está sendo espalhado e que a imprensa tem papel nisso porque, segundo ele, não conta as coisas boas. E no tempo de fala de Osmar, o que se permite ver são as reações de Mandetta, levando várias vezes as mãos à cabeça e a balançando negativamente.

No fim do dia, no começo do domingo, no decorrer da semana, o bolsonarista imbecil – perdão pelo pleonasmo – que tem uma opinião similar à de Terra espalha aos seus e aos outros, e aí a assinatura vem de alguém que é médico, então passa a ser crível e aceitável. Não à toa, a quarentena não funcionou em nenhum lugar no Brasil: as opiniões são desencontradas também porque a mídia abre espaço às erradas em nome da tal diversidade de ideias. Quem tem ideias erradas não deve ter palanque.

Parece que a Globo não sabe, ao fim e ao cabo, que o brasileiro faz da ignorância um método de vida e de lucro, em algumas partes. Só um lockdown no país todo resolveria a situação brasileira. Em todas as cidades. Todas. Porque o brasileiro não aprende. Tem de ser forçado a fazer as coisas porque lhe falta consciência. Até não resolver a situação no país todo, todo mundo tem de castigo. Mas se houver um ‘GloboNews Debate’ sobre o assunto lockdown, capaz que chamem aquele conhecido ‘véio’ que quer comércio aberto e lucro no fim do dia.

O que a GloboNews faz neste pretenso programa de debate, portanto, é uma antítese ao próprio jornalismo do grupo Globo, zeloso ao ponto de fazer com que seus repórteres usem máscaras em todas as matérias de rua para tentar conscientizar a população do #FiqueEmCasa.

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