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CNN Brasil começa com uma cara: a de que o negro terá pouco espaço

Canal de notícias divulgou foto de seus apresentadores: apenas um é negro em um país em que 55% da população se declara assim

CNN Brasil divulga foto com apresentadores: só uma pessoa é negra (Foto: CNN Brasil)

Estreia neste domingo (15) a franquia brasileira da CNN, um dos principais canais de notícias do mundo. No Brasil, o canal faz pacote de empresas de TV a cabo e é controlada por Douglas Tavolaro, CEO da CNN Brasil e presidente do conselho editorial, e Rubens Menin, proprietário da MRV Engenharia. Principal construtora do Minha Casa Minha Vida, programa do Governo Federal de habitação, a MRV colocou sob atenção o início da operação do canal em relação a eventuais interesses tanto da empresa quanto do seu cliente. Com direito à reunião fora da agenda entre Jair Bolsonaro, Tavolaro e Menin, e elogios à emissora por parte do presidente.

Segundo o site Notícias da TV, para que a linha editorial não seja influenciada por esses interesses, o Conselho Editorial, composto por sete jornalistas, conta com a presença de uma observadora da CNN dos Estados Unidos, Shasta Darlington, ex-correspondente do canal no Rio de Janeiro. Cabe a esse conselho observar se a emissora seguirá uma posição de liberdade editorial, conforme prometido.

No entanto, as ‘polêmicas’ em torno da implantação da CNN Brasil não acabam aí. No final de janeiro, um dos materiais de divulgação do canal trouxe uma foto com seus 15 âncoras. Entre eles, apenas um negro, mais especificamente uma mulher, a jornalista Luciana Barreto. Em um país onde 54,8% da população se declara negra (somando pretos e pardos), essa fotografia fez soar o alarme de que se tratava, mais uma vez, do nosso racismo estrutural. Em meio à repercussão sobre a fala de Rodrigo Bocardi (Leia aqui artigo de Bruno Pavan, do Ultrapop, sobre o assunto), Luciana fez o seguinte alerta em seu Twitter:

O racismo possibilita a William Waack, demitido da TV Globo após ser flagrado dizendo uma fala racista, ser contratado pela CNN Brasil para apresentar o principal telejornal da emissora, o Jornal da CNN. Ou ainda ter em seu corpo de comentaristas Leandro Narloch, que escreveu que, na comparação com outros países, a questão racial pouco importa aos brasileiros, em um arrazoado de argumentos que servia para, no fim, defender um ideário antirreparação como as cotas; e Caio Coppolla, defensor frequente do presidente e membro de um grupo de Whatsapp intitulado Mkt Bolsonaro. A foto de divulgação dos comentaristas do canal, no início de fevereiro, reforçou que a diversidade está longe de ser a tônica.

Equipe de comentaristas confirma falta de diversidade (Foto: CNN Brasil)

Novelas e programas também são avessos

O racismo na televisão brasileira não se circunscreve à CNN Brasil. No documentário ‘A Negação do Brasil’, lançado em 2000, o diretor Joel Zito Araújo mostra como diferentes atores foram preteridos por atores brancos, citando casos como o da novela ‘A Cabana do Pai Tomás’, exibida em 1969 pela TV Globo. Nela, o ator branco Sérgio Cardoso interpretava tanto o abolicionista Dimitrius quanto o escravo Tomás, que intitulava a telenovela, recorrendo à black face, em vez de ter sido escalado um ator negro para o papel.

Ainda em ‘A Cabana do Pai Tomás’, atrizes brancas pediram para que o nome de um ícone da nossa dramaturgia, Ruth de Souza, protagonista daquela telenovela, aparecesse em uma posição secundária nos créditos iniciais. Joel Zito Araújo mostra, em ‘A Negação do Brasil’, como a questão do pouco espaço dado aos atores negros em nossa televisão é algo que atravessa as décadas, não se restringindo ao final da década de 1960.

Ainda que a presença de negros na televisão seja cada vez maior, essa realidade permanece a ponto de um ator como Babu Santana, com um currículo cheio de filmes e telenovelas, tenha entrado na 20ª edição do ‘Big Brother Brasil’ sem ser reconhecido por seus colegas de confinamento e relatando que, até hoje, vive em uma casa de aluguel. Situação que levou a um dos destaques da atual temporada de Malhação, João Pedro de Oliveira, ator que interpreta Serginho, expor em seu Twitter a seguinte preocupação:

Aos negros é exigido que, reiteradamente, mostrem mais competência para ocupar os espaços onde estão. É emblemático ainda que, apenas em 2019, a maior emissora de televisão do país tenha colocado uma jornalista negra, Maju Coutinho, para apresentar um dos seus principais telejornais, o ‘Jornal Hoje’. E que ela, mesmo com seu talento reconhecido, tenha tido sua posição questionada por supostos erros não destacados em apresentadores brancos.

É importante ter em mente que a televisão brasileira não é uma instância apartada de nossa sociedade e cultura. Vivemos em um país racista, possuidor de uma profunda dívida com seu passado de escravidão, onde a televisão é atravessada por todas as contradições que o caracterizam. Longe de diminuir as responsabilidades dos diretores das emissoras, como a TV Globo e a CNN Brasil, compreender que o racismo as envolve deve servir para reposicionar o lugar da crítica e das transformações.

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