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“A Globo é um lixo. O Bolsonaro tem razão”, grita mulher ao microfone. O que o jornalismo tem a ver com isso?

Falsas equivalências e debates ocos fazem o jornalismo profissional cair cada vez mais em descrédito

Aconteceu nesta sexta-feira (10) uma cena inusitada durante uma passagem do repórter Renato Peters no SP 1, jornal local da Rede Globo em São Paulo. Enquanto fazia sua entrada na frente do Hospital Geral da Vila Nova Cachoeirinha, zona norte da cidade, uma mulher tirou o microfone da mão de Peters e disse: “a Globo é um lixo, o Bolsonaro tem razão”. A cena logo foi cortada para o apresentador Cesar Tralli e não conseguimos ouvir mais nada do que ela fala.

Na última terça-feira (7) foi comemorado o Dia do Jornalista. Muitas postagens inundaram as redes sociais parabenizando a classe e muitas delas reforçando da importância do jornalismo de qualidade nesse momento de pandemia e de bolsonarismo no país. A frase da mulher, “Bolsonaro tem razão”, é um claro produto da campanha de ódio que o presidente lançou contra qualquer tentativa de fazer um jornalismo sério. Mas o que o jornalismo tem a ver com isso?

Falsa equivalência

Conflitos entre presidentes e imprensa aconteceram com todos os eleitos democraticamente desde Collor. Nos 12 anos e meio que o PT ficou no poder, com Lula e Dilma, o jornalismo nunca deixou de existir e de reportar os fatos. Algumas tentativas de regulamentação da mídia, como existem em diversos países do mundo, até engatinharam mas não saíram da gaveta. Dilma Rousseff, sepultando de vez o assunto, disse que “o melhor controle é o controle remoto”.

No início do segundo turno da eleição presidencial de 2018, ficou célebre o editorial “uma escolha muito difícil” publicado pelo Estado de S. Paulo. O jornal escancarou o que muita gente gostaria de dizer e não disse: que PT e Bolsonaro eram dois extremos do debate político.

Ninguém sequer corou ao levantar essa possibilidade pra uma pessoa que elogiou um torturador ao vivo, para o Brasil inteiro ver, na votação pelo impeachment de Dilma Rousseff. Ninguém deu um passo atrás quando disse que os negros quilombolas pesavam em arrobas e que não serviam nem para procriar. A bola seguiu rodando. Todos sabíamos quem era Bolsonaro. Alguns fingiram não escutar para derrotar o adversário político da ocasião.

Falsos debates

Também no tal dia do jornalista, o apresentador Marcão do Povo, do SBT, deu uma dica ao presidente sugerindo que infectados pelo coronavírus fossem enviados para campos de concentração para que o comércio voltasse a funcionar. Um show de desinformação de preconceito.  

Antes dele, o novo fenômeno de audiência da Rede TV, Sikeira Jr., em entrevista com Bolsonaro, leu a pitoresca história do primo do porteiro que morreu após ter um pneu estourado na sua cara e foi diagnosticado com covid-19. A história foi compartilhada por diversos perfis de apoiadores de presidente e trata-se de uma grande mentira. Sikeira, no entanto, leu o tuíte sem que fosse desmentido por alguém no ar.

A CNN Brasil aposta em um formato falsamente democrático, que é o do debate. Acontece que um dos participantes do programa é um apresentador sensacionalista envernizado e com cara de estudante do Mackenzie Caio Copolla, capaz de comparar as mortes do coronavírus aos de engasgamento nos EUA.

Tudo isso junto forma um ambiente mais do que propício para a desconfiança e, em último caso, revolta da população contra o jornalismo profissional. Não adianta felicitações de frases de efeito somente em um dia do ano se isso não vier acompanhada de uma consciência do jornalismo sobre o seu papel na formação de uma massa crítica no país.   

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1 Comment

1 Comment

  1. Renato

    19/04/2020 at 20:03

    Lendo a matéria, a mulher e o Bolsonaro tem razão! A mídia tradicional ainda não entendeu, ou é muito resiliente.
    De qualquer forma o Brasil está de parabéns, esse basta já demorou muito.

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