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O fim da privacidade: a ameaça da Clearview AI

Ferramenta de reconhecimento facial criada por startup pode acabar com a privacidade como a conhecemos, e não estamos falando apenas do mundo online

A tecnologia da Clearview AI é uma séria ameaça a privacidade de qualquer pessoa, e ela já está sendo usada desde o ano passado por centenas de forças de segurança nos Estados Unidos. 

A tecnologia foi desenvolvida a partir de mais de 3 bilhões de fotos encontradas em sites como Facebook, Twitter, YouTube e Venmo, entre muitos outros, e seu funcionamento é tão simples quanto preocupante, já que pode identificar qualquer um, mesmo que ele não tenha nenhum registro nos bancos de dados das autoridades.

Como funciona o Clearview AI?

Basta subir uma imagem ou vídeo de qualquer pessoa para o sistema, e o Clearview AI vai mostrar outras fotos públicas do indivíduo, além dos links nos quais eles foram encontrados. 

Todas as fotos de suspeitos enviadas pelos policiais ficam salvas nos servidores da Clearview, e a partir daí são armazenadas em um banco de dados de suspeitos identificados pelas autoridades. 

A ferramenta ainda não foi testada por instituições especializadas para identificar o seu nível de acerto, mas segundo a Clearview AI, ela funciona em até 75% dos casos.

A tecnologia foi criada por Hoan Ton-That, um australiano descendente de vietnamitas que criou vários apps sem muito sucesso, até desenvolver sua solução de rastreamento e identificação de rostos que ele acreditava que tivesse um bom potencial para o uso em delegacias de polícia.

Ligações perigosas 

A questão de como entrar nesse mercado foi resolvida quando Ton-That conheceu e se tornou sócio de Richard Schwartz, um ex-funcionário do ex-prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani. A Clearview AI tem como um dos principais investidores o polêmico Peter Thiel, dono da Palantir e um dos primeiros a apostarem no Facebook, e que recentemente reduziu sua participação na empresa.

Outro investidor da ferramenta é David Scalzo, da Kirenaga Partners, que garante que a tecnologia da Clearview está sendo usada para prevenir e solucionar crimes, e não é uma ameaça à privacidade de todos. 

Para ajudar a divulgar seu serviço, a empresa o distribuiu de graça para várias mais de 600 agências e departamentos de segurança nos Estados Unidos (tanto na esfera estadual quanto federal), segundo a empresa, que não ofereceu uma lista completa. 

Segundo uma matéria do The New York Times, o código da tecnologia permite que ele rode em óculos de realidade aumentada, assim uma pessoa poderia andar pela rua identificando todos os outros que cruzam o seu caminho. A empresa se defende, dizendo que apesar de existir essa possibilidade, o uso com óculos ou headsets AR não está nos seus planos.

Como surgiu o Clearview AI?

Depois que a empresa foi formada, eles começaram em 2016 o trabalho de rastreamento e identificação de rostos, e mesmo os sites com regras que proíbem o uso de reconhecimento facial como o Twitter foram usadas. Em 2017 já tinha lançado sua ferramenta, chamada de Smartcheckr. 

Um ano atrás, já com o nome Clearview, a tecnologia da empresa foi usada pela Polícia estadual de Indiana para resolver um crime em apenas 20 minutos, identificando um suspeito que não tinha carteira de motorista e nem passagens pela polícia. 

A partir daí, a empresa passou a oferecer um teste grátis de 30 dias para várias forças policiais, com o objetivo de vender seu peixe e também sua assinatura anual. 

Por enquanto, nada disso era público, mas o primeiro caso de um crime solucionado com a ferramenta Clearview AI foi divulgado no final do ano passado. O app chamou a atenção da imprensa por ter ajudado a identificar uma assaltante e depois entregar o link de seu perfil no Facebook.

A tecnologia certamente usada na repressão de protestos por governos e forças policiais. Além disso, a Clearview também disponibilizou seu app para muitas empresas particulares usarem em seus sistemas de segurança. 

O público alvo está feliz, pois a ferramenta tem sido usada para resolver vários crimes, a questão é a ameaça que ela representa para todas as outras pessoas que não estão cometendo crimes. 

E as empresas das quais as imagens foram copiadas?

O Google já se manifestou exigindo judicialmente que a Clearview pare de rastrear rostos nos vídeos do YouTube, e também apague do sistema todos os dados e imagens coletados por lá.

De acordo com os termos de serviço do YouTube, e proibido fazer o rastreamento de rostos no serviço, algo que a Clearview AI admitiu publicamente estar fazendo. Recentemente, o Twitter seguiu o exemplo, e o Facebook e o Venmo também tomaram a mesma atitude, mas nem todo mundo está preocupado, e alguns veículos de comunicação chegam a elogiar o uso da tecnologia. 

Por falar no Facebook, recentemente a empresa aceitou um acordo de US$ 550 milhões por ter quebrado a lei de privacidade do estado de Illinois, criada em 2008, e que determina que as empresas precisam do consentimento dos usuários antes de coletar suas informações biométricas. A mesma lei foi usada para dois processos contra a Clearview AI. 

A ameaça da Clearview AI

Apesar da empresa garantir que seu programa não foi feito para uso dos consumidores, apenas de autoridades de segurança, nada impede que eles façam isso de forma velada, ou até que um concorrente copie a tecnologia para que ela seja usada pelo público um dia. 

A tecnologia também pode ser usada por policiais fora de seu horário de expediente, algo que a empresa garante que não acontece pois eles precisam de autorização de seus supervisores para usar o app. 

Amazon Ring e a vigilância da vizinhança

A Ring, empresa que foi comprada ano passado pela Amazon, tem um serviço de vigilância bem menos abrangente que o da Clearview AI, mas que também está criando polêmicas. 

As câmeras da empresa estão sendo usadas por 400 departamentos de polícia nos Estados Unidos para criar uma espécie de vigilância da vizinhança. O sistema é simples: a câmera do Ring é acionada sempre que alguém toca a campainha, ou quando alguém passa na frente da porta, o que é identificado através de um detector de movimentos. 

Quando uma destas duas variáveis acontecem, o dono da casa recebe um alerta pode ver quem está na sua porta mesmo à distância, e também tem a possibilidade de compartilhar o vídeo com a polícia ou até postá-lo em sua rede social favorita.

Pela parceria, as autoridades podem a qualquer momento requisitar os vídeos gravados pelos donos das câmeras sem a necessidade de nenhum mandato. As críticas dos experts em privacidade são que essas gravações podem ser usadas para transformar os moradores em informantes, e ameaçar as liberdades civis dos cidadãos. 

Apesar dos usuários não serem identificados, a câmera mostra o rosto e voz de qualquer um que esteja na porta da casa. Como a câmera tem resolução alta, ela mostra também o que está acontecendo na rua e muitas vezes até na porta do vizinho que mora em frente. 

Como os vídeos da câmera Ring podem ser compartilhados pelos usuários em redes sociais, isso é motivo de muita preocupação sobre a privacidade das pessoas filmadas, que muitas vezes são apenas entregadores fazendo o seu trabalho. A fundação Fight for the Future fez um apelo a Amazon para que interrompa com seu programa de vigilância da vizinhança. 

Ingleses evitam rastreamento facial em protestos públicos com maquiagem

Na Inglaterra, em 2018, a polícia inglesa usou pela primeira vez o reconhecimento facial para identificar presentes em um protesto, algo que segue gerando muita revolta. Segundo grupos defensores de liberdades civis, a tecnologia errou em 98% das identificações. 

Foto: Cocoa Laney (The Observer) 

A resposta a isso? Os manifestantes estão usando maquiagem no rosto para tentar burlar os sistemas de reconhecimento facial. A União Europeia também está considerando um banimento da tecnologia de rastreamento digital pelos próximos 5 anos. 

Conclusão

A moral dessa história é que que cada vez mais esse tipo de tecnologia será usado por empresas e departamentos de polícia, então nem os nossos rostos são mais privados hoje em dia. Vivemos em tempos definitivamente sombrios para nossa segurança e privacidade, e todo cuidado é pouco.


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