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Sociedade

Nada será como antes, amanhã

Nessa quarentena que amanhecemos tomate, anoiteceremos mamão

A pandemia de covid-19, fez boa parte do mundo ficar de quarentena, em casa, sem sair pra trabalhar, pra beber, sem pegar ônibus e sem estar perto da maioria das pessoas. O vírus, para muitos, vai mudar para sempre o mundo em que vivemos. Vimos como as políticas de austeridade fiscal coloca milhões de pessoas em empregos precários e sem nenhuma proteção do Estado. Desmonte de sistemas de saúde, de direitos trabalhistas e previdenciários cobraram seu preço. Os governos tentam tapar um buraco aqui e ali. Mas, como cantou Milton nascimento, nada será como está.

Nesse dois dias, além de trabalhar, eu estou tentando colocar a leitura em dia. Um livro que me chamou a atenção é a coletânea de artigos “Riqueza e miséria do trabalho no Brasil IV – trabalho digital, autogestão e expropriação da vida”, lançada pela Boitempo em 2019 e organizada pelo professor da Unicamp Ricardo Antunes.

O terceiro artigo se chama “A expropriação do tempo no capitalismo atual” e foi escrito pelo espanhol Renán Vega Cantor. Como o título já diz, ele fala sobre um dos maiores bens dos seres humanos que, desde a revolução industrial, vem sendo roubado pelo capitalismo: o tempo.

Nunca há tempo o suficiente

O artigo lembra de um ditado africano que diz “todo branco tem relógio, mas nunca tem tempo”. O capitalista sempre se apropriou do tempo do seu funcionário, desde as antigas fábricas fordistas até hoje. Com a infoproletarização a coisa muda um pouco de figura. E pra pior. Ao invés de ficar claro para o funcionário de que ele de fato está entregando aquele tempo a alguém em troca de algo (salário) o capitalismo busca inverter a lógica sempre jogando nas suas costas a responsabilidade de seu sucesso particular.

Por conta disso que são bastante comuns os guias de estilo de vida de bilionários. Por uma quantia ínfima de R$29.90 você pode “descobrir os segredos dos bilionários”, diz a propaganda. Os R$ 29.90 aí serão baratos para o quê é a verdadeira intenção dele: te colocar uma lógica de tempo. É o caso, por exemplo, do 5 a.m. Club. Esse seleto grupo, normalmente compostos de executivos bem-sucedidos, propaga a ideia de que você precisa dormir, no máximo, até as 5 da manhã e se obrigar a fazer um monte de coisas no seu tempo fracionado. Das 5 às 5h30 – meditar; das 5h30 às 6h – tomar um banho gelado; das 6h às 7h – se exercitar; das 7h às 7h30 ler as notícias e das 7h30 às 8 – tomar um café da manhã. Está vendo como é fácil? Depois disso, sim, seu dia de trabalho começa. Claro que para Jeff Bezos isso não é difícil. Ele é um dos maiores bilionários do mundo e ninguém vai encher a sua paciência por chegar atrasado ou por ficar com sono o dia todo.  Agora experimente você, assalariada ou assalariado, não render o suficiente porque dormiu somente 4 horas na noite anterior e ainda teve que pegar o transporte público cheio?

Cantor lembra de depoimentos de moradores da antiga União Soviética que se queixam ainda do ritmo frenético que o capitalismo lhes impõe. “Quando falam da época anterior a 1989-1991, concordam que sobrava tempo para ter amigos, fazer visitas, conversar e compartilhar. Hoje, não existe isso, porque o capitalismo tem imposto um ritmo frenético e veloz, e não há tempo para nada, nem para os amigos nem para desfrutar de alguma atividade cultural ou do gozo pessoal, algo que não somente era gratuito há um quarto de século, como mobilizava importantes setores da população”.

O perto e o distante

Nessa quarentena a população também perderá o seu direito de ir e vir. Claro, por um motivo nobre que é a proteção dos mais idosos e mais suscetíveis aos sintomas do novo coronavírus. E a tecnologia será uma importante aliada.

Além de conversar com pessoas queridas que estão longe via internet, inúmeros artistas e museus já se mobilizaram para entregar entretenimento para quem pode ficar em casa nos próximos meses. LINK Além disso, a tecnologia já permite que pessoas distantes fisicamente possam até ver um filme juntos. Mas o autor nos lembra, também, que essa valorização do distante e afastamento do que está próximo também é uma estratégia do capitalismo atual.

“Acabamos amando o distante e odiando o próximo, porque este último está presente, porque tem cheiro, porque faz barulho, porque incomoda, ao contrário do distante que podemos fazer desaparecer com um zapping […]. Estar mais perto daquele que está distante do que daquele que está ao nosso lado é um fenômeno de dissolução política da espécie humana. A perda do próprio corpo comporta a perda do corpo dos outros em benefício de uma espectralidade do distante”, citou.

Isso também é sentido na solidariedade de classe dentro do novo capitalismo. Hoje você pode trabalhar em locais como os coworkings, em que um jornalista pode trabalhar ao lado de um advogado, atrás de uma arquiteta e na frente de um programador. Claro que você pode ter uma amizade com todas aquelas pessoas, mas você não é mais um jornalista em diálogo com colegas de trabalho jornalistas em um mesmo ambiente. E isso faz diferença.

O não suportar quem está próximo também pode explicar muito a nossa nova sociabilidade nas redes. O que é a cultura do cancelamento se não o não entendimento de alguém que está ao seu lado mas que pode pensar um milímetro pra lá ou pra cá?  Em um mundo de fadas sensatas e cristais sem defeitos a possibilidade de você simplesmente cancelar alguém é bastante sedutora. Acontece que aquela pessoa não irá se desintegrar. E agora?

“Perca” tempo

Em “Samba e amor” Chico Buarque de Holanda sabota a lógica do horário comercial. Ele faz samba e amor até mais tarde, sente sono de manhã e ignora o trânsito contornando a cama em que está com a amada. A música tem cor e cheiro de zona sul carioca, mas Renán aponta que a sesta, momento de sono após o almoço que ocorre principalmente ne Espanha, precisa ser salva das garras do capital. De acordo com especialistas, conta, ela faz o cérebro operar com a máxima eficiência, o corpo ser mais ágil e saudável.

“Se isso é certo, a expropriação da sesta é um atentado contra a saúde dos seres humanos e, por isso, tem muito sentido considerar uma revolução reivindicá-la como um direito humano fundamental nestes tempos vertiginosos em que não existe tempo para aquilo que não é regido pela lógico do lucro e da acumulação”.  

Um outro modo de “perder tempo” para o capitalismo é na hora do almoço. O fast food, comida que você não demora mais de 5 minutos para pegar no balcão e nem 10 para comer, é talvez o maior símbolo do tempo é dinheiro. Hoje em dia essa lógica vai ainda mais longe. Na sua hora de almoço, ao invés de você sair de seu local de trabalho e arejar a cabeça, você pede sua comida e come no local de trabalho, muitas vezes na frente do computador.

“O comer, em termos culturais, baseava-se até pouco tempo atrás no sentido da lentidão, um dos luxos mais preciosos que existem, porque uma boa comida requer e necessita de tempo para ser preparada e degustada”, apontou Cantor.

Eu poderia apontar aqui mais dezenas de exemplos de como a nossa gestão do tempo é cada vez mais apressada e conturbada. De um CD que você não ouve mais inteiro pelo app porque três minutos escutando uma música que você não gosta tanto pode ser uma eternidade. Mas vou parar por aqui para não ser confundido com um boomer (poxa, tenho 32 anos, gente…). O recado, porém, é: após esse tempo de recolhimento, amanhecemos tomate, anoiteceremos mamão.

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1 Comment

1 Comment

  1. roxxon valdez

    24/03/2020 at 11:22

    NÃO foi bem o capitalismo mas um ditador “capitalista” do marxismo de bambú que expropriou nosso direito a informaçao, facilitando mais valia da praga chinesa pelo mundo.

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