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Sociedade

Como o empreendedorismo de palco misturou meritocracia e autoritarismo ‘good vibes’

Startup da Real explica como esse discurso saiu do mundo corporativo para tomar a agenda pública

“Trabalhe enquanto eles dormem”, “seja seu próprio patrão”, “saia de sua zona de conforto” são alguns chavões que passamos a escutar recentemente com a cultura o empreendedorismo. Isso aquece mercados como o do coach motivacional e os do livro de autoajuda, que agora não ensinam mais a ser feliz, mas a ser rico em poucos passos. 

Na contramão disso, o Startup da Real apareceu nas redes sociais para desnudar muitos desses mitos startapeiros. O conteúdo até virou o livro chamado “Esse livro não vai te deixar rico – Descubra a verdade sobre empreendedorismo, startups e a arte de ganhar dinheiro” (Ed. Planeta Estratégia) e o podcast “Cozinha em tempos de guerra”.

O autor, que prefere manter o anonimato, disse em entrevista Ultra POP que o interesse em analisar e criticar essas figuras surgiu depois que ele percebeu como esse discurso de enriquecimento fácil estava ganhando forma no grande público. “Vi muito desse discurso surgindo, e muitas das vezes nem era de charlatões diretamente, mas de um grande grupo que adotava e reproduzia os mesmos discursos”, disse.  

Mercado dos guias de enriquecimento

Ficar rico sempre foi um grande objetivo das pessoas no capitalismo. Nada mais natural. E hoje há toda uma indústria que, teoricamente, ensina você a ganhar dinheiro. Livros e palestras são feitas por ricos que, curiosamente, ganham dinheiro dividindo com você, pobre mortal, o segredo de ganhar dinheiro. 

“A promessa de ficar rico é um mercado gigantesco. Livros, cursos e os mais diversos produtos são criados para explorar esse sonho das pessoas. O problema é que, quando vamos olhar os históricos, o principal fator que levou os ricos para o lugar onde estão, foi ter nascido rico ou com uma estrutura que permitisse assumir riscos sem que sejam penalizados pelos erros. Por trás de todo grande ‘case’ de sucesso existe um pai rico, um avô generoso ou uma boa carga de sorte. Só que o discurso que faz a ideia de enriquecer soar como um conhecimento técnico é convincente e faz pessoas que não possuem segurança financeira assumirem riscos enormes, muitas vezes terminais. É uma relação onde quem vende o sonho sempre ganha, mas não compartilha as perdas com quem está de fato se arriscando”, explicou Startup.  

Quando o discurso chega na política

Para funcionar, esse empreendedorismo de palco (ou de livro) precisa de um verniz sociológico ou filosófico, digamos assim. E foi na meritocracia que ele encontrou o grande pulo do gato onde um simples discurso se transforma em um projeto de país. O autor explica que jogar para o esforço pessoal de alguém toda a oportunidade de dar certo na vida é uma forma de mascarar as injustiças do sistema capitalista. 

“O discurso da meritocracia serve como narrativa para justificar distorções sociais. Quando um rico se vê encurralado por ter tanto e outros tão pouco, dizer que foi mérito é a saída para tornar essa diferença um problema do outro, não dele. Por que ele precisaria ajudar alguém, se ele mereceu aquilo e outra pessoa não? Por que ele deveria brigar pelas oportunidades dos pobres, se a diferença entre eles é que um se esforçou e o outro não? Toda história, transferência de riquezas, heranças e nepotismo são abafados pelo mito da meritocracia”, aponta. 

Mas, para além da questão do enriquecimento e sucesso pessoal, esse discurso também vem ganhando o debate público. Figuras como o governador de São Paulo João Doria ou do Partido Novo vem se ancorando nesse discurso para dizer que o Estado precisa de gestores como os da iniciativa privada. Além disso, ele vem acompanhado com a negação do Estado na vida das pessoas. Não é coincidência que reformas liberais como a trabalhista ou da previdência conseguiram ser aprovadas recentemente. 

“Como se na esfera social este já não fosse um discurso perigoso, na esfera política ele vem sendo adotado para justificar reformas trabalhistas. Direitos? É só negociar com o patrão. Salário mínimo? Se você se esforçar e merecer, vai ganhar o suficiente e não vai precisar se preocupar com o mínimo. Vemos cada vez mais políticos justificando cortes de direitos com justificativas idênticas aos mitos criados pelos charlatões do empreendedorismo”, criticou.

A força do “propósito”

Uma das grandes jogadas do discurso empreendedor são os eufemismos para a palavra trabalhador. A pessoa não trabalha mais na empresa, ela é uma colaboradora. Claro, quem colabora ajuda, tá ali no mesmo barco e pode trabalhar mais do que o combinado, por que não? Hora extra? Não, né. Somos família aqui. 

Um dos exemplos de como as empresas usam sentimentos positivos como forma de exploração apareceu na semana passada, quando um vídeo da startup de entregas shoppers.com foi publicado pela própria empresa. Nela, vários funcionários contam como está sendo o trabalho nesse momento de pandemia. Alguns declaram que não estão tendo contato nem com os país. 

O autor destaca que o suposto formato mais democrático e descolado de muitas startups são somente fachada para uma nova postura autoritária, que não respeita horário ou condições saudáveis de trabalho. 

“Muita lavagem cerebral é feita em cima da ideia do bem maior. Não é a toa que o mundo empresarial adotou a palavra ‘propósito’ e usa esse suposto compromisso com algo muito importante para justificar salários muito baixos e condições de trabalho hostis. Empresas, como a do vídeo, se apoiam nesse discurso para convencer funcionários de que todo sacrifício é apenas uma etapa no cumprimento dessa missão, e o sacrifício pessoal por algo tão maior é uma postura muito nobre. É claro que nem todo mundo compra esse discurso, mas os que não compram são intimidados pelo outro lado do mesmo discurso. Ameaças de que quem não estiver totalmente alinhado com esse propósito perderá o emprego, que não será tolerada falta de compromisso e outras formas de posturas autoritárias que empresas adotam para impor a assimetria de poder. Resta aos funcionários comprar o discurso do propósito ou ficar quietos caso não queiram perder o emprego”, explicou.

Startup da real também reforça que o momento de agora, com o isolamento social, a pressão das empresas tende a aumentar. 

“No isolamento social a pressão psicológica tem sido grande. A incerteza do futuro e a depressão econômica servem como lembretes diários de que a vida pode piorar bastante. Este medo favorece ainda mais a prática exploratória da força de trabalho. Para não perder nosso sustento nos submetemos ao pior. Misture as duas sensações e vemos trabalhadores beirando o esgotamento e desenvolvendo síndromes de ansiedade. Tirando o óbvio fator de que, é claro, estão expondo os trabalhadores ao risco do coronavírus”, acredita. 

O discurso exageradamente otimista pode ser prejudicial 

No início da pandemia, empresários como Roberto Justus, Júnior Dursk, Luciano Hang e Marcelo de Carvalho, alinhados com o presidente Jair Bolsonaro, se posicionaram contra o isolamento social porque “a economia não pode parar”. Milhares de “velhinos” teriam que pagar o preço com a vida, mas o empresário brasileiro não pode parar de vender seu hambúrguer.

Acontece que, do outro lado, há os otimistas exagerados, que vêem na pandemia uma “forma de se reinventar, pensar fora da caixa”, ou seja, um discurso revestido de uma camada de good vibes, o que pode aumentar a culpa nas pessoas que não conseguem enxergar o copo tão cheio de oportunidades assim.

“Grande parte do que move a imagem positiva desses empresários é esse otimismo exagerado. Ninguém gosta de estar por perto dos pessimistas, ninguém gosta de acreditar que no fim, tudo será pior. O discurso que incentiva o empreendedorismo bebe diretamente da água desse otimismo. Frases como `se você tentar você consegue`, `basta se esforçar`, `se construir eles virão`, `se não deu certo é porque ainda não chegou ao fim` são apenas alguns dos milhões de chavões otimistas que se descolam da realidade prática. Só que infelizmente as pessoas que estão no mundo real são capazes de sentir que esse otimismo não se aplica ao mundo delas. Quando todo mundo está focando no suposto lado bom das coisas e sua vida é um grande desastre, esse sentimento começa a se tornar pessoal. Você começa a acreditar que o problema é você. Um grande trabalho dos psicólogos que estão sendo formados agora será remover essa culpa gigantesca que estão instalando na mente de jovens e adultos, e assim demonstrar que não está tudo bem pra todo mundo, que o lado positivo nem sempre sobrepõe as partes ruins e que tudo bem sofrer as dores pelos acontecimentos ruins”, encerrou. 

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