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Política

“Quem não entende o Brasil de 2018 não entende o de 2020”, diz Mário Magalhães

Jornalista acredita que parcela significativa do jornalismo colaborou com a eleição de Bolsonaro

Divulgação

“Quando se olha muito tempo para o abismo, o abismo olha pra você”. Essa frase é do filósofo alemão Friedrich Nietzsche em sua obra “Para além do bem e do mal”. O jornalista e escritor Mário Magalhães publicou, em 2019, o livro “Sobre lutas e lágrimas: Uma biografia de 2018 – o ano em que o Brasil flertou com o apocalipse” (Ed. Record). Talvez a máxima niilista, representada pelo abismo, também pode servir para nós: quando um país que flerta com o apocalipse, o apocalipse flerta de volta.

Em entrevista exclusiva ao Ultra POP, Magalhães explicou que 2018 é uma espécie de ano-personagem, por isso chamou o livro de “biografia”. Isso não é novo no Brasil. Zuenir Ventura já havia tratado 1968 como “o ano que não terminou.”

“A última frase do meu livro é ‘o ano que flertou com o apocalipse deixará sequelas demais’. Desgraçadamente, a convicção de 2018 se confirmou. Da devastação da floresta amazônica à aversão à ciência, da consagração da mentira como arma de destruição em massa à promoção da violência para calar o pensamento divergente, da caça aos direitos dos brasileiros mais pobres aos ataques contra o jornalismo. Tudo isso se esboçou e se cristalizou em 2018. Por isso eu costumo dizer que quem não entende o Brasil de 2018 não entende o de 2020”, explica.

Uma prova de que 2018 ainda vive é o caso Marielle Franco. Magalhães começa o livro contando sobre o réveillon de Marielle com sua então companheira Mônica Benicio, na passagem de 2017 para 2018. Nesse dia 28 de maio de 2020, como nos lembra diariamente Eliane Brum em sua conta do Twitter, o Brasil está a 806 dias sem saber quem mandou matar Marielle e Anderson. 

A história não terminou em 2018

Após a queda do muro de Berlim e do fim da URSS, o filósofo e economista Francis Fukuyama defendeu a tese de que a História havia chegado ao fim. Tudo o que aconteceria a partir do fim do bloco comunista seria uma continuidade do modelo democrático-liberal. Claro que essa teoria se mostrou errada e a História surpreende a sociedade a cada esquina. 

O autor vai na mesma direção para explicar porque 2018 foi um flerte com o apocalipse e não o apocalipse em si. Magalhães aponta que 2018 deixou várias pistas do que estava por vir nos próximos anos. “Quem quis ver o que acontecia viu. Quem não viu ainda tem tempo de ver”. 

 “Algumas pessoas me perguntam: por que não o ano do apocalipse, do apocalipse consumado? Porque o apocalipse equivale ao fim. E a história não terminou em 2018, como comprova a pandemia da Covid-19. O primeiro capítulo do livro se chama ‘Sintomas da doença’. Ele trata da ignorância e da brutalidade frente à febre amarela. Muita gente matou macacos a pedradas e pauladas, supondo erradamente que eles transmitissem o mal. E milhões deixaram de tomar vacina. Abro o capítulo mencionando uma fala de personagem do filme ‘O cidadão ilustre’ sobre ignorância e brutalidade. E o que vemos agora, na pandemia? Ignorância e brutalidade de um poder obscurantista que manda milhares de pessoas para o matadouro, ao minimizar a letalidade do vírus. Muitas vidas que poderiam ser poupadas não foram devido ao caráter genocida, temperado por ignorância e brutalidade, da gestão governamental da crise. É claro que o alvo maior dessa política são pessoas pobres e negras. Mais uma vez prevalecem o racismo e a covardia”, contou.

O primeiro passo pra deixar 2018 pra trás: “a saída do poder de Bolsonaro, do vice Hamilton Mourão e dos valores medievais que ambos defendem e encarnam”, acredita.  

O papel do jornalismo

O jornalismo também também tem um papel muito importante na vida do personagem 2018. A máquina de fake news do então candidato Jair Bolsonaro funcionou a todo o vapor durante a campanha eleitoral, inventando mentiras contra seu adversário Fernando Haddad como a fabricação de mamadeira com o bico em formato de pênis para ser distribuída nas escolas. O recado era claro: a base bolsonarista se informava via redes sociais, baseado na pós-verdade e negando o jornalismo profissional.

Magalhães afirma que o jornalismo está fazendo um papel essencial nesse momento de pandemia e autoritarismo, mas que certos posicionamentos no passado, como igualar Bolsonaro e Haddad como se fossem extremos parecidos, foram equivocados. 

“Uma parcela expressiva do jornalismo faz um trabalho admirável hoje, sobretudo os jornalistas que vão às ruas, arriscando a saúde deles e de suas famílias. Arriscam-se para informar e, assim, salvar vidas. É uma cobertura de vida ou morte, o que não é mais metáfora. Infelizmente, parte também significativa do jornalismo promoveu campanhas contrárias aos interesses das cidadãs e dos cidadãos mais pobres e vulneráveis. Por exemplo, tal jornalismo mobilizou-se contra a presença no Brasil dos cubanos do Programa Mais Médicos. Quantas vidas teriam sido salvas se os médicos cubanos tivessem permanecido? Em muitíssimos lugares, faltam médicos. Há pacientes que morrem por falta de atendimento médico. Certo jornalismo foi decisivo para o triunfo eleitoral de Bolsonaro. Entre outros motivos, por tratar como equivalentes um defensor da civilização, Fernando Haddad, e um arauto da barbárie, o capitão. Na prática, esse jornalismo foi e é cúmplice da tragédia”, encerrou. 

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