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Política

Por que as panelas batem?

Os panelaços de 2015 levaram à queda da ex-presidente Dilma. O que pode acontecer agora?

São Paulo SP 18 03 2020- Panelaço contra o presidente Jair Bolsonaro no bairro de Santa Cecilia foto Jorge Araujo Fotos Publicas

“Eu sou você amanhã” essa era a frase que ilustrava o comercial das Vodkas Orloff, em meados dos anos 1980. Mas poderia ser usada pela ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) contra o atual, Jair Bolsonaro (Sem partido), depois dos dois panelaços dessa semana.

No ano de 2015 era comum que as sacadas gourmet dos prédios das principais capitais do país fossem ocupadas pelos barulhos das panelas. A economia vinha mal, a oposição não aceitou muito bem o resultado das urnas um ano antes e Rousseff e o PT não conseguiam ter força política. O primeiro dos protestos foi no dia 9 de março, quando a então presidenta foi à TV defender o ajuste econômico promovido pelo ex-ministro da fazenda Joaquim Levy.

Protestos têm natureza diferente

Ao analisar os protestos por bairros, principalmente em São Paulo, quem bateu em 2015 bateu em 2020. Bairros de classe média alta como Perdizes, Santa Cecília e Higienópolis, de acordo com vídeos na internet, foram onde os barulhos foram mais ouvidos. Apesar disso, a professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp) Rosemary Segurado vê algumas diferenças na natureza dos dois eventos.   

“Em relação a 2015, tínhamos ali o que alguns chamam de tempestade perfeita: uma questão econômica que ia mal, a falta de legitimidade da Dilma e um processo amplo de criminalização do PT. Ele teve características próprias e a Dilma não conseguiu redirecionar questões do governo pra se livrar do processo de impeachment. Já no governo Bolsonaro, que foi eleito graças a uma polarização bastante radical do país, pode-se dizer que ele vem queimando um capital político muito rápido. Bairros como Higienópolis, onde ele venceu a última eleição, foram abaixo nos panelaços de terça e quarta”, explicou.

Gestão da pandemia de coronavírus pesou

O presidente Bolsonaro tem desdenhado da recente pandemia de coronavírus que assola o mundo. No último domingo (15), contrariando todas as orientações para evitar contato com a multidão e não incentivar aglomerações, o presidente saiu do Palácio do Planalto para cumprimentar apoiadores que estavam nas ruas em sua defesa.


Na última quarta-feira (18) a reunião do presidente com seus ministros para alertar sobre a doença foi um show de desinformação, em que ele, inclusive, teve dificuldades de colocar a máscara descartável. Além de tudo isso, 22 pessoas que estiveram com o presidente nos EUA testaram positivo para a doença e o presidente ainda deseja fazer uma festa de aniversário nesse final de semana.

Para a professora o povo não se sente seguro com a liderança de Bolsonaro diante da grave crise em que vivemos, já que ele insiste ainda em diminuir a importância de medidas como a quarentena e a não aglomeração em espaços públicos.

“Quando a gente tem situações como essa, de não poder mais sair de casa, de ter amigos e familiares que adoecem, isso é mexer com uma coisa muito sagrada. Esse tipo de coisa pega muito mal nas pessoas, não cabe uma piada numa hora dessas numa coisa tão grave de uma autoridade. Ele não ter respeitado as orientações das áreas da saúde pegou muito mal. Ele perdeu o timing. Agora não dá pra brincar”, criticou.

Redução de apoio e impeachment no horizonte

Após os protestos de domingo, que foram pequenos mas que, mesmo assim, levou às ruas pessoas do grupo de maior risco do Covid-19, os maiores de 60 anos, um dos maiores apoiadores do presidente, o empresário Luciano Hang, das lojas Havan, fez uma crítica mais ou menos velada à postura do governo nesse momento.

Outro exemplo foi a da deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP) que criticou diretamente o presidente e pediu que o vice Hamiltom Mourão assumisse o seu posto.

Segurado diz que os dois depoimentos podem significar que o núcleo duro do bolsonarismo dentro do terço que o apoia pode estar ruindo.

“Eu vejo que nesse momento me parece que ele (Bolsonaro) faz uma opção de manter um diálogo somente com os que foram as ruas no domingo, e que ele não pensa em mudar essa posição. Ele pode perder capital político mais rapidamente. Quando eu vi que o Luciano Hang questionou a manifestação de domingo, aí me pareceu que o vento começa a mudar a direção e pode ser bem rápido esse processo”, acredita.

Sobre o afastamento do presidente, congressistas do PSOL apresentaram, na última quarta-feira, um processo de impeachment tendo a crise do Covid-19 como uma de suas razões. Ele foi apresentado pelas deputadas Fernanda Melchionna (RS), Sâmia Bonfim (SP) e David Miranda (RJ) e gerou racha dentro do próprio partido.

Para Rosemary, ainda é cedo para afirmar se um processo desses teria ou não força para ser aprovado na Câmara e no Senado e que entende a prudência de setores da oposição nesse momento, mas que o assunto já começa a entrar no radar dos políticos e da população brasileira.

“Não é fácil ainda e mesmo aqueles que são favoráveis tem um cálculo delicado, de não entrar com um processo porque vamos perder e isso o legitimaria. O que eu não sei é o quanto esse capital político vem sendo perdido nos apoiadores dele. O que era uma coisa improvável há 10 dias, já começa a se modificar e aí vai depender muito de como essa crise for conduzida”, encerra.  

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