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Política

Policial e antifa, Wagner Vidal dirige grupo seguido por mais de 117 mil pessoas no Instagram

Jovens pela Democracia (JPD) ocupa as redes sociais digitais para divulgar mensagens e reagir ao avanço da direita

Em 2018, grupo dirigido por Wagner apoiou Haddad, do PT, no 2º turno (Foto: Arquivo Pessoal)

Jovem, homem, branco e policial. Apesar de trazer vários dos elementos de grupos que, segundo diversas pesquisas, formam as bases de apoio mais fieis ao governo Bolsonaro, Wagner Vidal, paraibano de 27 anos, escapa desse retrato ao se declarar antifascista e dirigir um grupo de esquerda.

Interessado por política desde a época quando morava em sua cidade natal, Guarabira-PB, Wagner é, junto a outras seis pessoas, diretor nacional do Jovens pela Democracia (JPD). O movimento foi criado em 2016 em meio ao golpe contra a presidenta Dilma Rousseff e possui núcleos estaduais em, ao menos, 15 estados, com cerca de 100 membros em cada um deles.

Ativismo Digital

As redes sociais digitais são vistas de maneira estratégica pelo movimento. São mais de 117 mil seguidores só no Instagram, onde são publicados fotos, vídeos e memes. “Uma das estratégias é falar a linguagem dos mais jovens. Entendemos que, atualmente, as pessoas consomem os conteúdos de maneira muito rápida. Então, buscamos transformar assuntos mais complicados em algo didático, que permita a difusão, aumente o engajamento e atraia a atenção, sempre prezando pela veracidade da informação”, explica Wagner em entrevista ao Ultra Pop.

Segundo ele, o JPD busca preencher lacunas da esquerda nessa área. “A ausência da esquerda nas redes fez com que muitos jovens se identificassem com conteúdos produzidos pela direita. Buscamos fazer com que os jovens possam se reconhecer no que a gente produz, no que a gente fala, nas nossas ideias e sintam-se partes do movimento, propagando-o. Quem ignora a importância das redes sociais no ativismo político não entendeu ainda o que aconteceu de 2013 pra cá, com a ascensão da direita no país”.

Críticas à esquerda

O JPD se apresenta como um movimento suprapartidário, com membros filiados aos mais diversos partidos políticos de esquerda. Wagner é um dos não-filiados e expõe que as críticas do grupo não se restringem ao desempenho nas redes. “O PT, por exemplo, apesar dos inúmeros acertos, poderia ter apresentado reformas mais estruturantes quando esteve no poder, como as reformas agrária e tributária. Esperamos que os demais partidos, que se dizem de esquerda, possam ser mais firmes em seus posicionamentos, não permitindo dissidentes em pautas tão sensíveis como a Reforma da Previdência. Trata-se mais de uma crítica construtiva. Queremos e exigimos coerência dos nossos representantes”.

As críticas se estendem a quem, na esquerda, busca diminuir a importância das pautas classificadas como identitárias. “Se a gente quer realmente um avanço da nossa sociedade, com a garantia de direitos e igualdade, temos que enfrentar a pauta identitária. Se isso não partir da esquerda, de quem mais partiria? Temos muito que conquistar. Discordo totalmente de quem tenta atribuir o insucesso eleitoral a quem defende as pautas identitárias. É uma tentativa medíocre de se eximir da responsabilidade. É certo que o diálogo não pode ser apenas sobre isso, deve vir junto ao debate sobre educação, saúde e segurança, temas igualmente urgentes para o Brasil”.

Combate à corrupção e Lava-Jato

Em seu site, o Jovens pela Democracia coloca o combate à corrupção como um dos assuntos a serem enfrentados pelas esquerdas. Citando especificamente a operação Lava-Jato, Wagner faz questão de ressaltar que os mecanismos de fiscalização e controle precisam se dar dentro dos limites legais, “sob pena de enfraquecimento do próprio Estado democrático de Direito”.

“Nenhum juiz ou procurador está acima da lei e pode agir de acordo com sentimentos pessoais. É indiscutível a importância e grandiosidade da operação (Lava-Jato), mas também é evidente, diante de todas as provas apresentadas, que seus membros agiram à revelia da legalidade. Perseguiram, destruíram empresas, buscaram estabelecer um Estado paralelo em que o objetivo não era fazer justiça, mas sim, se autopromover, vender palestras, gerir bilhões de reais em um fundo suspeito, disputar cargos eletivos. Para isso, manipularam a opinião pública, estimularam o ódio, a violência policial e demonizaram a política”, argumenta.

Policial e antifascista?

O sistema penal não é apenas objeto de crítica, mas também lugar onde Wagner atua profissionalmente. Policial civil em Pernambuco, declaradamente antifascista, ele diverge dos argumentos de que é impossível relacionar agentes das forças policiais à defesa da democracia.

“O policial tem uma grande responsabilidade no combate ao fascismo porque lidamos com a violência, com a vulnerabilidade e a miserabilidade humana. Minha ideologia aparece no meu trabalho quando atuo respeitando os Direitos Humanos, não abuso do poder que o Estado me atribui e busco cumprir estritamente minhas funções, sem agir à margem da lei. Quando atendo e sirvo a população com respeito, independentemente da classe social, gênero ou orientação sexual. Ao não compactuar com atitudes indevidas de colegas de profissão e me posicionar contra qualquer tipo de abusos e injustiças”.

Wagner reconhece que parte das críticas da sociedade advém da postura de abuso de alguns agentes, junto à atuação repressiva das polícias, em especial, a militar. Para ele, desvios devem ser apurados através de investigações isentas, seguidas de eventuais punições. Ele é a favor também do debate sobre o fim da militarização. “O sistema militar e as relações hierárquicas dentro do militarismo criam uma relação de subserviência que muitas vezes passa dos profissionais para a sociedade”.

Wagner defende ainda a atuação conjunta dos estados e uma emenda constitucional que integre as polícias estaduais, ampliando o investimento em inteligência e capacitação. Colocando-se contra a descriminalização de drogas mais ofensivas, mas a favor do debate sobre a maconha, ele argumenta que, impedido de comercializar substâncias ilícitas, o tráfico recorrerá a outros produtos, como armas.

Para Wagner, a guerra às drogas é apenas uma das razões para o genocídio da juventude negra. “Enquanto o Estado não ocupar esse espaço, não der dignidade e oportunidade às pessoas que vivem nas periferias, o caminho natural delas será o mundo do crime, porque essa é a realidade que elas conhecem”, conclui.

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