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Política

Nos EUA e no Brasil, políticos se aproximam de reality shows e geram polêmica

O BBB 20 gerou tanto engajamento nas redes sociais que até políticos deram pitacos. Nos EUA, a situação não é muito diferente, com republicanos e democratas

Participantes da 12ª edição de RuPaul's Drag Race vestem roupas com emblema da bandeira americana (Foto: Divulgação)

Reality shows e política combinam? A eliminação de Felipe Prior na última terça (31) no paredão com a maior votação de todas as edições do BBB fez políticos se posicionarem. Eduardo Bolsonaro se manifestou a favor do eliminado (veja aqui análise do UltraPOP).

Hoje foi a vez de Fernando Haddad utilizar a eliminação do participante do BBB como isca a uma crítica a Bolsonaro:

Esquerdas e cultura pop

A relação entre esquerdas e cultura pop é sempre vista com muitas críticas. Haddad chegou a ser xingado no Twitter pelo comentário acima. Há certa relutância em considerar que a cultura pop – e os reality shows como parte dela – possa ser lugar de disputas políticas. Isso é mais visível em parte da esquerda que vê os produtos da indústria cultural como objetos de manipulação e alienação.

O fato de estarmos no meio de uma pandemia aumenta o tom das críticas. Enquanto o Brasil enfrenta problemas para controlar o surto do covid-19 e tenta aprovar medidas para favorecer a população, mesmo que o presidente queira exterminar boa parte dos brasileiros, é esperado que a oposição faça um serviço duro neste quesito (veja aqui lista de iniciativas da oposição de enfrentamento à covid-19). Logo, assistir e opinar sobre BBB nas redes sociais como político, na atual situação, talvez não seja a posição mais adequada.

João Bertonie, mestrando em Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBA, pesquisa as relações entre drag queens e produtos audiovisuais. Em entrevista ao UltraPOP, ele afirmou que, por muito tempo, a esquerda adotou uma “postura um pouco arrogante com os produtos da cultura pop”, mas que isso pode estar mudando.

RuPaul’s Drag Race

Um exemplo dessa possível mudança é que um dos mais vistos e comentados reality shows do mundo – RuPaul’s Drag Race – vem abrindo espaço para a participação de políticos, como a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, em 2018. E, na edição desse ano, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez (AOC). Ambas democratas.

AOC é um fenômeno das redes sociais. Milhares de vídeos seus são compartilhados em várias redes sociais, ela já fez lives de dentro de casa, onde aparece cozinhando enquanto fala sobre o cotidiano de uma novata na Câmara dos Deputados.

Ela não esconde ser fã de RuPaul’s Drag Race, inclusive com tuítes e homenagens às queens que participaram do reality. Além disso, a democrata é filha de uma porto-riquenha, sendo muito vinculada a minorias, como os latinos e LGBTs.

O vídeo abaixo em que AOC aparece prestando juramento ao Drag foi criticado pela direita americana alegando que ela nunca fez o mesmo à bandeira, o que indicaria uma suposta falta de patriotismo. A participação da congressista, muito alinhada com as ideias do candidato à presidência Bernie Sanders, ainda foi atacada por, segundo pessoas contrárias, soar muito oportunista durante uma campanha presidencial.

Relações recentes

Bertonie explica que RuPaul é “reconhecidamente uma democrata moderada”, mas que vem se aproximando de posições mais à esquerda, como as defendidas por AOC e pela ex-candidata à indicação dos democratas, Elizabeth Warren.

Ele lembra que Warren teve um espaço na DragCon 2019, conferência bianual dedicada às drag queens e promovida pela World of Wonder, produtora de RuPaul’s Drag Race, em Nova York e Los Angeles.

“Em vez de endossar Joe Biden, outro democrata moderado, RuPaul optou por uma candidatura feminina mais à esquerda, aproximando-se das propostas de Warren em relação ao direito à moradia para jovens LGBTQ+ e a luta contra a morte por transfobia. Acredito que isso se relacione com a radicalização que a retórica de Trump trouxe pra vários aspectos da política norteamericana, aproximando moderados de centro-esquerdistas (caso de Warren) e de socialistas democráticos (caso de AOC), além do engajamento crescente de minorias de gênero e sexualidade”.

O pesquisador acredita que essas aproximações podem indicar mudanças na relação entre políticos – principalmente da esquerda – e os produtos da cultura pop:

“Acredito que as coisas têm mudado de figura ultimamente, com a percepção de que os produtos da cultura pop envolvem questões importantes, mobilizam as pessoas, acionam posicionamentos inevitavelmente políticos. A edição corrente do Big Brother Brasil é o exemplo mais próximo, com celebridades, esportistas e políticos da direita e da esquerda reconhecendo sua importância. Nesse sentido, a esquerda pode se beneficiar muito em aproximar suas pautas dos temas que circulam entre os produtos da cultura pop, se aproximando mais afetivamente das pessoas e mostrando as afinidades que podem ser construídas ali”, conclui.

O caminho contrário

Em um passado não muito distante, Donald Trump e João Doria eram empresários de sucesso bem duvidoso e apresentadores de reality show. O mesmo programa, aliás. Trump comandava ‘The Apprentice’ nos Estados Unidos enquanto Doria tinha ‘O Aprendiz’ aqui no Brasil. Ambos ganharam notoriedade de líderes e comandantes imponentes quando apenas repassavam tarefas para outros e depois demitiam participantes de maneira caricata.

Enquanto apresentavam os programas, Trump e Doria se notabilizaram por fazer o caminho contrário do que vemos atualmente. Ambos eram críticos ferrenhos das gestões de Barack Obama e Lula, respectivamente, sendo ativos nas redes sociais com reclamações aos governantes da época. Isso fez com que eles ganhassem voz em um momento que poucos ouviam apresentadores de televisão sobre questões políticas.

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