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Política

Ministro cai não por ser nazista, mas por deixar tão explícito autoritarismo de Bolsonaro

O discurso do agora ex-Secretário da Cultura é todo baseado na temática de Goebbels (Foto: Reprodução)

A sociedade brasileira não encara suas chagas históricas com a devida atenção que, por exemplo, os alemães conferem ao nazismo. Hoje, ela sofre com uma gestão que persegue jornalistas, cientistas, artistas e membros de movimentos sociais

O discurso do agora ex-Secretário da Cultura é todo baseado na temática de Goebbels (Foto: Reprodução)

“Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais”, disse Jair Bolsonaro, em um discurso no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro, em abril de 2017. Parte da plateia formada, majoritariamente, por judeus riu e aplaudiu não só essa frase, mas os ataques do então pré-candidato a gays, refugiados e a líderes de esquerda, como o ex-presidente Lula.

16 de janeiro de 2020. O Jornalistas Livres informa: secretário de Cultura do agora presidente Jair Bolsonaro, Roberto Alvim, se inspira nos seguintes trechos de um discurso de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha Nazista para anunciar um Programa de Incentivo às Artes.

“A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”, escreveu Joseph Goebbels.

“A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional, será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional, e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo – ou então não será nada”, soltou Roberto Alvim.

Para reforçar a falta de coincidência, o vídeo tinha como BG uma composição de Richard Wagner, músico alemão e um dos favoritos da cúpula nazista. A declaração de Alvim sofreu forte rejeição e, dessa vez, parte dos judeus que ou silenciaram ou apoiaram o governo Bolsonaro se disse profundamente indignada com as declarações.

Dois desses judeus são o apresentador e cotado a candidato a presidente Luciano Huck, que lembrou de sua ascendência judia no Twitter: “Sou brasileiro de família judia. 6 milhões de judeus morreram por causa do nazismo. O holocausto é um fato histórico. Usar a Cultura p/ fazer revisionismo histórico é perverso e violento. O vídeo do secretário Roberto Alvim é criminoso. Revela uma conduta autoritária inaceitável”. E Davi Alcolumbre, presidente do Congresso Nacional, primeiro judeu nesse cargo e um dos principais apoiadores de Bolsonaro, também naquela rede social: “É inadmissível termos representantes com esse tipo de pensamento. E, pior ainda: que se valha do cargo que ocupa para explicitar simpatia pela ideologia nazista e, absurdo dos absurdos, repita ideias do ministro da Informação de Adolf Hitler, que infligiu o maior flagelo à humanidade.”

O que mudou entre a declaração em 2017 e essa de 2020? Por que ataques a quilombolas, indígenas, líderes sem-terra e sem-teto não são veementemente repudiados por esses nomes? Por que as reiteradas saudações a Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos maiores torturadores da Ditadura Militar brasileira, não foram razões suficientes para o repúdio ao presidente Jair Bolsonaro? Por que as piadas LGBTfóbicas não causam repulsa?

Há uma diversidade de razões. Uma delas é que a sociedade brasileira não encara suas chagas históricas com a devida atenção que, por exemplo, os alemães conferem ao nazismo. A escravidão matou mais pessoas nas senzalas e travessias marítimas que o Holocausto – e aqui não pretendemos nem queremos diminuir esse crime –, mas por que Auschwitz é o símbolo de uma triste memória e o Cais do Valongo é ignorado por vários, senão pela falta de enfrentamento às heranças da escravidão?

Racismo é crime no Brasil. Imaginemos que, na Alemanha, um político se refere dessa maneira a um grupo vulnerável e vítima do Estado como os judeus – lá como aqui, apologia ao nazismo também é crime. Ele seria aplaudido e apoiado, como Bolsonaro foi no Clube Hebraica, em 2017, ao se referir aos quilombolas, ou de lá sairia preso?

Roberto Alvim foi demitido – segundo Mônica Bergamo, colunista da Folha de S.Paulo, após pressões da Embaixada israelense no Brasil –, mas as diretrizes que autorizaram sua política para as artes permanecem. Ele estava no cargo por vontade direta do presidente da República. Bolsonaro concedeu um espaço a Alvim em uma live – seu modo de comunicação direta com seu público – estabelecendo a cultura conservadora como política de Estado.

Não se trata de cortina de fumaça. O que pegou para Alvim não foi a inspiração nazifascista – que perpassa outras áreas do governo –, mas ela ter sido explicitada de forma tão evidente. A Ancine, por exemplo, tem vetado ou dificultado, através de entraves burocráticos, financiamento e lançamento de filmes, como ‘Marighella’, dirigido por Wagner Moura e com estreia, finalmente, confirmada para maio de 2020.

O caso Alvim escancara, mais uma vez, o caráter autoritário do governo Bolsonaro. Foi vendida a ilusão de que as instituições seriam capazes de normalizá-lo, que Paulo Guedes e Sérgio Moro, ministros da Economia e Justiça, colocariam freios no presidente. O que se vê, entretanto, é uma gestão que persegue jornalistas, cientistas, artistas e membros de movimentos sociais e da esquerda. Sob silêncio cúmplice dos liberais que, blindados, tocam o projeto ultraliberal, que agrada o mercado, maior fiador desse governo.

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