Siga-nos

Política

Façamos os ricos pagarem pela Covid-19

O pobre que ainda precisa encarar o transporte público não tem a mesma responsabilidade de quem dilapida direitos

Nesse final de semana o Brasil soube das opiniões de dois empresários sobre a pandemia do coronavírus. O publicitário e apresentador de TV Roberto Justus e o vice-presidente da Rede TV Marcelo de Carvalho mostraram solidariedade, não aos milhões que podem morrer ao contrair a nova doença, mas aos empresários que vão perder dinheiro por conta da quarentena no mundo todo.

O que isso mostra é que os empresários brasileiros vivem com a cabeça na superexploração dos pobres. Não basta tirar direito trabalhista, aposentadoria, serviços públicos de qualidade, é preciso jogá-los nas ruas para fazer a roda da economia girar. “Não vai matar ninguém na favela”, diz Justus. Pensando bem, meu caro, vide quem morre nas áreas mais pobres das grandes cidades por falta de política pública de qualidade, talvez o coronavírus seja mesmo só mais uma das desgraças cotidianas que afeta os mais pobres. Mas jogá-los nas ruas não é solução. 

Como os ricos devem pagar a conta?

Na esteira de Carvalho e Justus, o CEO da Tesla Elon Musk, um dos homens mais ricos do mundo, disse que o pânico sobre a Covid-19 é “uma idiotice”. Já Mark Zuckekberg resolveu ir para o lado mais bonzinho, o do empresário filantropo. O dono do Facebook anunciou que doará US$ 20 milhões para ajudar no combate ao coronavírus. O lucro líquido do Facebook em 2019 foi de US$ 18,48 bilhões (com b).  

Nas redes já é possível ver muros pichados pelo mundo com os dizeres “Façam os ricos pagarem pelo Covid-19” e isso não significa Zuckergerg ou qualquer outro doar o equivalente a 0,1% do lucro anual de sua empresa. O recado é claro: esse modelo do capitalismo não é e nunca foi sustentável. Quem tira direitos de 99% da população como quem rouba doce de criança é que tem culpa na pandemia e não o vírus em si.

O vírus é político

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e sua equipe econômica assinaram no último domingo (22) a medida provisória que permite suspensão dos contratos de trabalho por até quatro meses. Na prática as empresas não precisarão pagar seus funcionários por esse período mas poderão conceder ao empregado ajuda compensatória mensal com valor negociado entre as partes. Ou seja, quase uma caridade. Os acordos, claro, não dependerão de convenção coletiva. Então lá vai a trabalhadora e o trabalhador negociar diretamente com o patrão. Vista suas máscaras e capriche no álcool em gel porque não será fácil.


Muita gente critica esse tipo de abordagem por conta da “politização” do vírus. A notícia pra esse pessoal é: tudo é político. Quando você acredita que “é melhor ter emprego que direitos”, quando você passa anos e anos desmerecendo o Sistema Único de Saúde você está fazendo um discurso político e quando tudo isso se encontra em uma pandemia que pode fazer colapsar a saúde pública e deixar pessoas que não tem nenhum direito trabalhista em casa, é obrigatório politizar o vírus. 

Claro que é necessário, nesse momento, que todo estejam juntos para evitar um estrago ainda maior para a sociedade, mas é preciso dividir muito bem as responsabilidades. O pobre que, ainda hoje, precisa enfrentar o transporte público lotado e ir trabalhar, o idoso teimoso que insiste em ir na feira porque ouviu e acreditou no presidente dizendo que essa “gripe não é nada” não tem a mesma responsabilidade de quem dilapida direitos. 

Depois que a quarentena passar, o mundo tem contas a acertar com o 1% da população.  

Assine nossa newsletter

Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Relacionados

Bolsonaro, o covid-19 e a caixa de empatia

Política

Estamos na merda

Política

Quando voltarmos, não teremos mais Aldir Blanc. E o que mais?

Música

Avanço da covid-19 ameaça realização do carnaval de Salvador

Política

Publicidade
Assine nossa newsletter

Copyright © 2020 | Todos os direitos reservados.

Connect
Assine nossa newsletter