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Política

De quem a esquerda deve segurar a mão?

Mais de um ano depois da eleição de Jair Bolsonaro, grandes grupos de esquerda tentam se aproximar de figuras como Luciano Huck. Será que esse é o melhor caminho?

Por Bruno Pavan e Thiago Ferreira

No final de 2018, logo após o segundo turno que deu mais de 57 milhões de votos para Jair Bolsonaro e o elegeu presidente, uma campanha tomou conta das redes sociais do que ficou conhecido como setor progressista da sociedade: ninguém solta a mão de ninguém.

A frase, acompanhada com uma figura de duas mãos se segurando, representava que a solidariedade seria a principal arma contra um governo que prometia (e cumpriu) ser machista, homofóbico e contra o direito das minorias. Em suma: um governo violento e autoritário.

Acontece que o tempo se passou e o mote acabou virando um guarda-chuva onde cabe absolutamente tudo. Até mesmo figuras como Joice Hasselmann tiveram uma mãozinha não solicitada para se segurar.

A escolha muito difícil

Os últimos ataques da mílicia digital do presidente tiveram duas jornalistas mulheres como alvo: Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo, e Vera Magalhães, do Estado de S.Paulo. A primeira foi difamada por Hans River, ex-funcionário da Yacows, na CPMI das Fake News, quando foi acusada de se insinuar sexualmente para conseguir informações sobre a matéria dos disparos ilegais de Whatsapp na campanha do então candidato.

Já Magalhães foi atacada por publicar, em primeira-mão, que o próprio presidente compartilhou no Whatsapp uma convocação para o ato do próximo dia 15 de março, contra o Congresso Nacional. Em meio a ataques nas redes sociais, a jornalista foi defendida por figuras da esquerda como Guilherme Boulos, a quem já chamou de bandido. Em outros carnavais, Vera já atacou Manuela D’Ávilla após a sua participação no Roda Viva, quando a então candidata foi interrompida dezenas de vezes.

Ficou famoso no ano passado o editorial “uma escolha muito difícil” em que o Estadão, colocava Bolsonaro, que elogiou um torturador durante o voto favorável ao impeachment de Dilma Rousseff, com um governo que, em mais de 14 anos no poder nem de longe flertou com o autoritarismo. Deu no que deu. Vera, em 2019, defendeu o editorial do jornal. E pra quem acha que os patrões do jornal aprenderam ou se arrependeram, hoje foi publicado o editorial “a quem interessa a crise?” uma espécie de “uma escolha muito difícil 2.0”.

Você não gosta de mim, mas da minha filha você gosta

O governo Jair Bolsonaro, no quesito moral, é de fato inédito no Brasil. Campanhas como a de abstinência sexual para jovens, o cerceamento da Ancine e as não-políticas de educação e meio ambiente nunca dantes foram vistas na história desse país. Agora, uma das principais faces desse governo é algo bastante conhecido do povo brasileiro: o desmonte de direitos e do (fraco) estado de bem-estar social que temos. E isso não vem contando com denúncias e críticas de boa parte da chamada grande imprensa. 

Com um verniz liberal e moderno, Paulo Guedes é um dos queridinhos da imprensa e do empresariado. Resultado ele ainda não mostrou, mas esse setores mostram que, depois da desregulamentação trabalhista e da previdenciária, está a fim ir mais a fundo para atingir um crescimento e um nível de investimento que ainda não chegou. 

Em uma sociedade em que há 38 milhões de autônomos trabalhando mais de 12 horas por dia sem nem um almoço adequado, a esquerda precisa, urgentemente, ter um antídoto ao insano discurso de “ter emprego é melhor do que ter direitos”. Nesse caso, porém, não adianta contar com a mão da imprensa para segurar. 

O segundo é o ministro da justiça Sérgio Moro. Pensado para ser um super ministro que poderia colocar freios nos arroubos autoritários do presidente, Moro hoje é um mero funcionário. A leitura de sua esposa Rosângela, temos que admitir, é muito mais acertada do que a imprensa quer acreditar que seja: “eu vejo o Sérgio Moro no governo do presidente Jair Bolsonaro, eu vejo uma coisa só”, declarou.

Não sejamos, porém, tão tolos. A declaração da cônjuge do ministro também serviu para dar uma esfriada nos boatos de que o ex-juiz seria candidato de oposição ao capitão. Não seria prudente aumentar a temperatura da fritura faltando tanto assim para o pleito de 2022.   

A esquerda que só pensa naquilo

Apesar de ter perdido a eleição de 2018 e um projeto claramente fascista estar no poder, a esquerda só tem cabeça pra uma coisa: eleição. E as estratégias de Lula, Flávio Dino e dos irmãos Gomes são diferentes.     

O ex-presidente saiu da prisão interessado nos televangelistas da TV aberta. Para ele, o PT precisa segurar novamente nas mãos dos evangélicos, que já foram próximos ao partido e hoje estão de mãos dadas com o discurso moralista, autoritário e neoliberal de Bolsonaro. Mas como essa coligação seria feita? Na base do jogar a agenda de costumes e de respeito às mulheres e aos LGBTS no lixo novamente? Ou na compreensão da teologia da prosperidade e identificação de evangélicos progressistas?   

Do outro lado, o governador do Maranhão Flavio Dino também aposta na moderação do discurso pra ganhar terreno. Ao que parece, caiu na história da “ultra polarização que faz mal ao país” e quer sentar para conversar com quem pode ser o queridinho da direita, mas com jeitinho de centro: Luciano Huck. Teria, nesse caso, que se sentar também com Armínio Fraga e aceitar uma agenda neoliberal com, digamos, flores na barba. 

Na contramão de Lula e Dino estão os irmãos Gomes. Depois da fuga para Paris de Ciro e do ataque à Lula por parte de Cid, resolveram se reposicionar no tabuleiro de 2022. Se distanciam dos nomes petista e comunista e partem para a ruptura com uma dose extra de testosterona. A imagem de Cid partindo pra cima de PMs amotinados em Sobral com uma retroescavadeira e tomando um tiro é mais impactante do que qualquer fala ou convite para o diálogo. Nesse momento, ao que tudo indica, os Gomes perceberam que o brasileiro está cansado de bom-mocismo e acabam apelando para um modus operandi bolsonarista, mas com sinal invertido. Entretanto, repetem a estratégia equivocada de 2018. Em um vídeo divulgado hoje, em resposta a Bolsonaro, Ciro repisa a tese da “polarização” e diz não estar associado a um suposto “lulopetismo corrompido”.

A esquerda está morta?

A discussão sobre os desafios da esquerda estão presentes também na academia, tanto no Brasil quanto no mundo. No nosso país, gerou controvérsia o texto do filósofo e professor da USP Vladimir Safatle argumentando que a esquerda brasileira está morta. E ele, com correção, afirma que, se até Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central dos anos FHC diz ser de esquerda, não há qualquer possibilidade de um projeto com esse nome que se distinga junto à população. Devendo a esse campo reconhecer a morte de um certo modo de ser esquerda para se reinventar.

Lawrence Grossberg, um autor dos estudos culturais dos Estados Unidos e professor da Universidade de Chapel Hill, parece nos indicar sobre quem de fato as esquerdas lá e cá deveriam dar as mãos: “a esquerda tem de estar sempre aberta a ser modificada por aqueles a quem está tentando politizar e mobilizar. Esta é uma visão de uma política democrática popular; não recusa nem ratifica liderança, hierarquias e estruturas”.

Estamos em um país de desigualdades abissais, com 12 milhões de desempregados e com minorias sendo alvos de violências cotidianas. Deveria ser evidente – mas não parece ser – a quem as esquerdas brasileiras teriam que dar a mão nesse momento.

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