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Política

Bolsonaro é o “humor politicamente incorreto” no poder, diz pesquisador

Em agosto de 2018, Raul Nunes já havia alertado sobre o uso dos programas de auditório pelo então candidato

O presidente Jair Bolsonaro, visita o estúdio do Artista Romero Britto

Na última quarta-feira (4) o governo Jair Bolsonaro tinha uma tarefa dura: informar o fraco crescimento de 1,1% no PIB de 2019, mostrando que não bastou as reformas trabalhista, ainda com Michel Temer e da previdência, já sob sua tutela, para o mercado recuperar a confiança no país.

E o que o presidente fez? Pegou dados pra explicar o mau desempenho? Cobrou explicações de sua equipe econômica? Nada disso, na sua já rotineira entrevista na saída do Palácio da Alvorada, onde conta com uma claque de apoiadores, Bolsonaro apelou para o humorista Carioca para não responder nenhuma pergunta e ainda provocar os jornalistas, entregando banana a eles.

Para Raul Nunes, mestre e doutorando em sociologia pelo IESP-UERJ, a postura não surpreende. Nunes escreveu, juntamente com Victor Piaia, ainda em agosto de 2018 o artigo “Política, entretenimento e polêmica: Bolsonaro nos programas de auditório” e acredita que o presidente levou a lógica dos programas de auditório para a presidência.

“É ali (na cena com Carioca) que Bolsonaro se sente à vontade, em meio ao público, para soltar suas ‘polêmicas’. Transformar falas problemáticas em mera polêmica é uma estratégia de normalização. Bolsonaro aprendeu a ser uma peça de entretenimento”, explicou.

O humor como arma contra e a favor

O brasileiro sempre fez graça com seus mandatários. Os mais velhos certamente vão se lembrar das sátiras feita pelo Caceta e Planeta na Rede Globo. “Viajando Henrique Cardoso” e “Luiz Falar é Fácil Lula da Silva” foram dois personagens marcantes do programa. Chico Anísio, ainda na época da ditadura militar, tinha a personagem Salomé, uma senhora que “conversava” pelo telefone com o então presidente João Batista Figueiredo. Inclusive sendo convidado pelo próprio para fazer uma apresentação no palácio.

Apesar do tom dos humoristas, na maioria das vezes, ser o da crítica, Carioca e seu personagem Bolsonabo, foram muito mais favoráveis ao presidente. Nunes acredita que essa aproximação vai ao encontro do discurso de Bolsonaro, muitas vezes encarados como politicamente incorreto, com um tipo de humor que ainda insiste em fazer graça com negros, mulheres e gays.

“É o humor ‘politicamente incorreto’ tornado forma de governar.  Em artigo na Folha, o Rodrigo Nunes descreveu bem o comportamento do governo como uma trollagem para expandir os limites do aceitável. Dizer que uma jornalista quis “dar o furo” é uma forma de fazer isso, de transformar o ataque à imprensa numa piada à la Danilo Gentilli. Se alguém aponta isso como violência, será taxado de sem graça”.

Porém, ainda há espaço para o humor de oposição. A rede Globo, por meio de quadros como o “Isso a Globo não mostra” e programas como “Zorra” e “Fora de Hora” andam batendo forte no governo e seus ministros. “A Globo se abriu a tratar alguns temas de maneira muito frontal. Pode ser uma aposta não só no confronto com o governo Bolsonaro, mas na ideia de que a política virou tema cotidiano para brasileiros e brasileiras, disse.

Comunicação direta com o público

De acordo com a última pesquisa Datafolha, a aprovação do governo está em 30%. Pequena se formos levar em consideração eu só um pouco mais de um ano de sua eleição. Ela é mais alta entre os homens mais velhos e que ganham mais de 5 salários mínimos, ou seja, é aí que a política e os discursos do presidente são mais influentes.

Nunes aponta que a tática e se apresentar como um homem “do povo” é essencial para que a política de enfrentamento de Bolsonaro possa prosperar.

“Isso tudo é uma forma de se manter uma figura leve, tragável e que fala diretamente com o povo. Ele precisa manter a imagem de governante apoiado pelo povo e atento a ele. Essa é a arma que ele tem para pressionar os outros poderes, já que não é muito afeito às negociações”, encerrou.

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