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Muito além de ‘Espelho’: João Nogueira e o legado eterno do ‘sambista de calçada’

Das grandes parcerias com Paulo César Pinheiro à fundação do revolucionário Clube do Samba, João Nogueira fez história e tornou-se um dos maiores sambistas de todos os tempos com verdadeiros hinos, como ‘Espelho’ e ‘Poder da Criação’

João Nogueira (Divulgação)

Quando eu canto é para aliviar meu pranto
E o pranto de quem já tanto sofreu
Quando eu canto estou sentindo a luz de um santo
Estou ajoelhando aos pés de Deus
Canto para anunciar o dia
Canto para amenizar a noite
Canto pra denunciar o açoite
Canto também contra a tirania
Canto porque numa melodia
Acendo no coração do povo

A esperança de um mundo novo
E a luta para se viver em paz!

Carioca, suburbano, mulato e malandro. João Nogueira se foi há exatos 20 anos, mas seu legado segue muito vivo. Não apenas pela carreira trilhada hoje por seu filho mais famoso, Diogo Nogueira, mas principalmente pelas centenas de sambas, muitos deles marcados eternamente como verdadeiras obras-primas da música brasileira. Impossível não lembrar (e não se emocionar) de canções que viraram grandes hinos como ‘Espelho’, ‘Poder da Criação’, ‘Súplica’, ‘Minha Missão’ e ‘As Forças da Natureza’, dentre tantos outros.

Nascido no subúrbio nos melhores dias, no Méier, Zona Norte do Rio, João, que se denominava “sambista de calçada” porque não era oriundo do morro e tampouco da classe média, se via como um verdadeiro malandro carioca, tinha como inspirações na música Noel Rosa, Wilson Batista e Geraldo Pereira, protagonizou grandes parcerias, sobretudo com Paulo César Pinheiro, amava a vida boêmia e militou em favor do samba ao fundar e liderar o Clube do Samba.

A primeira inspiração de João foi o pai, João Batista Nogueira, sergipano de Porto da Folha. Advogado e funcionário público do Ministério da Fazenda, o patriarca também era um grande músico. Quando se mudou do Nordeste para o Rio, desembarcou no Méier, onde promovia saraus com ícones como Pixinguinha, Noel Rosa e Jacob do Bandolim. Foi nesse meio musical que João Batista Nogueira Júnior nasceu em 1941, herdando do ‘Velho João’ toda a musicalidade. Nogueira perdeu o pai quando tinha somente 11 anos. E a falta que seu grande ídolo fez desde então o inspirou a compor um dos mais tocantes sambas de sempre tempos depois.

Aos 15 anos, o ainda menino João começava a compor e escrevia sambas para o bloco carnavalesco Labareda do Méier. Lá, conheceu Moacyr Silva, funcionário da famosa gravadora Copacabana, onde o sambista gravou suas primeiras músicas anos depois. No mesmo bloco, conheceu Paulo César Valdez, filho de Elizeth Cardoso. A mãe famosa conheceu suas composições e escolheu ‘Corrente de Aço’, que fez parte do seu LP ‘Falou e Disse’ de 1970.

Mas João passou a ficar conhecido nacionalmente graças a ‘Das 200 Pra Lá’, canção de conotação política que defendia a expansão da fronteira marítima brasileira ao longo de 200 milhas além do continente. A música, gravada por Eliana Pittman em 1971, ganhou o mundo e foi destaque até mesmo na revista norte-americana ‘Time’. À época, João, que integrava a ala de compositores da Portela depois de ter vencido um concurso na escola de samba, ainda trabalhava na Caixa Econômica Federal.

Embora o tema de ‘Das 200 Pra Lá’ fosse explorado pela ditadura, João deixava claro que não tinha apreço algum pelo governo militar. Tanto que o artista se mobilizou pela redemocratização do Brasil e anos depois, na década de 1980, se filiou ao PDT de Leonel Brizola.

Em 1972, enfim veio a chance de gravar seu primeiro LP solo, que levou seu próprio nome e tinha muitas das suas composições, como ‘Beto Navalha’ e ‘Alô Madureira’. Dois anos depois, no seu segundo disco, ‘E Lá Vou Eu’, João Nogueira iniciou a histórica parceria com o também sambista Paulo César Pinheiro, marido de Clara Nunes, a Mineira. Os dois assinaram faixas como ‘Batendo à Porta’ e ‘Eu hein, Rosa!’, que fora gravada por ninguém menos que Elis Regina. A homenagem a Noel Rosa também estava lá ao gravar ‘Gago Apaixonado’.

Daí em diante, João Nogueira produziu outros clássicos como ‘O Homem de um Braço Só’ — em homenagem a Natal, da Portela —; ‘Do Jeito Que o Rei Mandou’, com Zé Katimba; ‘Nó na Madeira’, com Eugênio Monteiro; e ‘Mineira’, escrita em parceria novamente com Paulo César Pinheiro e que homenageou Clara Nunes. Essa faixa foi um dos grandes sucessos de João Nogueira naquela época.

Foi em 1977, contudo, que João lançou o samba que marcou para sempre sua carreira. Em ‘Espelho’, o artista se emociona ao cantar a saudade do pai: “Ê, vida à toa/Vai no tempo, vai/E eu sem ter maldade/Na inocência de criança de tão pouca idade/Troquei de mal com Deus por me levar meu pai”. Nogueira lembrou também que teve de trabalhar cedo para ajudar a sustentar a casa quando perdeu seu maior inspirador. 15 anos depois de ‘Espelho’, Nogueira gravou a continuação da música, chamada ‘Além do Espelho’, desta vez dedicada aos filhos.

A partir daquele sucesso em 1977, Nogueira passou a gravar um LP por ano. O de 1978, chamado ‘Vida Boêmia’, teve sucessos como ‘Baile no Elite’, escrita com Nei Lopes, e ‘As Forças da Natureza’, novamente com Paulo César Pinheiro. Estourado na música, João teve um LP lançado pela sua gravadora, a Emi Odeon, com os maiores sucessos da sua trajetória até então.

Foi no ano seguinte, 1979, que João deu um passo além na carreira ao fundar e liderar o Clube do Samba, tendo como apoiadores ícones como Alcione, Martinho da Vila, Beth Carvalho, o escritor e jornalista Sérgio Cabral, Paulo César Pinheiro e sua irmã, Gisa Nogueira. Naquela época, a grande protagonista da música brasileira eram as discotecas, impulsionadas pela novela Dancin’ Days. O samba aparecia pouco nas TVs e nas rádios, que davam preferência às músicas internacionais, e vários cantores e compositores tinham dificuldade para encontrar seu espaço.

O movimento foi visto como um ato de resistência e de defesa do samba e da própria música brasileira como um todo. No começo, o Clube do Samba teve como palco a casa de João, no Méier. Nomes lendários como Cartola, Chico Buarque, Roberto Ribeiro e Paulinho da Viola fizeram parte do movimento. Dos encontros de grandes sambistas, surgiu um cantor magrinho, apadrinhado por Beth Carvalho e que viria a ser um dos maiores anos depois: Jessé Gomes da Silva Filho, o Zeca Pagodinho.

O Clube do Samba repercutiu muito na imprensa depois de ter ganho uma página inteira de matéria no Jornal do Brasil graças ao jornalista Austregésilo de Athayde, que também foi presidente da Academia Brasileira de Letras. O movimento ganhou ainda mais espaço na mídia, foi destaque no ‘Fantástico’, revista eletrônica da Globo, virou até bloco carnavalesco e ajudou a manter o samba em evidência.

João ainda fez uma ponta no filme ‘Quilombo’, que contou a história de Zumbi dos Palmares. A obra dirigida por Cacá Diegues foi, inclusive, indicada à Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1984.

A obra de João Nogueira também se estende ao carnaval. Em meio a uma dissidência na Portela, o sambista, ao lado de Paulo César Pinheiro, integrou um grupo que se desligou da escola de Madureira e fundou a Tradição. A dupla compôs os primeiros sambas-enredo da nova agremiação e chegou a ganhar o Estandarte de Ouro como melhor samba do grupo de acesso. Anos depois, em 1995, João Nogueira voltou para a Portela, uma das suas grandes paixões de sempre, como também era o Flamengo.

Em 5 de junho de 2000, depois de dois anos e meio sofrendo de problemas de saúde, João Nogueira se foi, aos 58 anos, vítima de infarto em casa quando dormia. Deixou a esposa, Ângela, e os filhos Diogo, Clarisse, Tatiana e Iara Valéria. Deixou também um legado inestimável de 18 discos, mais de 300 sambas escritos e grandes serviços prestados à música brasileira, sendo eternizado como um dos maiores sambistas de todos os tempos.

A vida é mesmo uma missão
A morte é uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu

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