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Feliz por trajetória na música, mas triste pelo Brasil: Salgadinho vê “sociedade anestesiada”

Ícone do pagode, Salgadinho comemora 50 anos de vida e 30 de carreira na música em 2020. “De repente, você olha para tudo e vê que construiu um legado”. Mas a felicidade dá lugar à tristeza quando fala sobre o Brasil dos tempos de Bolsonaro: “Regredimos mais de 50 anos”

‘Inaraí’, ‘Recado À Minha Amada’, ‘No Compasso do Criador’, ‘Cilada’, ‘Liberdade Sonhada’, ‘Corpo Lúcido’… Cantor, compositor e ícone do pagode nos anos 1990, Salgadinho ditou moda no samba com óculos escuros, terno e sapato e, até hoje, continua na boca do povo com verdadeiros hinos que marcaram gerações de fãs por todo o país.

2020 representa uma fase especial para Paulo Alexandre Nogueira Salgado Martins. Neste ano, o artista chegou aos 50 anos — nascido em 10 de janeiro de 1970 —, 30 deles na dura estrada como músico. Consagrado como líder do grupo Katinguelê — onde ficou até 2010 —, Salgadinho tem agenda cheia com shows no Brasil e no exterior. Recentemente, relançou o clássico ‘Inaraí’ ao lado de Dodô, vocalista do Grupo Pixote, e iniciou a ‘Salgadinho Experience Tour’ para comemorar o meio século de vida, resgatar os eternos sucessos e divulgar músicas inéditas.

Quando analisa o caminho que percorreu e ainda percorre na carreira, o sentimento é de orgulho. “Sabe quando você ama o que faz, trabalha com amor, dedicação e zelo? De repente, você olha para tudo e vê que construiu um legado. É bonito de se ver, foi bom ter feito as minhas escolhas. É um privilégio fazer parte da vida de tanta gente através da arte, através da música”, diz o sambista em entrevista exclusiva ao Ultra POP.

Salgadinho tem sua origem na Zona Sul da capital paulista. Lá, desde menino, conheceu e se apaixonou pelo samba, fazendo da música seu ganha-pão. Fez sucesso cantando o amor. Mas o cantor e compositor sente que sua obra estaria incompleta se não traduzisse nas canções a dura realidade das ruas.

“De onde venho, a rotina diária de vida se equivale à vida da maioria dos brasileiros. Então, não tenho o direito de olhar somente para o cenário atual. É uma obrigação da minha alma trazer todo o contexto, até por não ter virado estatística entre 75% de afrodescendentes que são mortos nas periferias do Brasil. Muitos nem chegam a completar 20 anos de idade”, lembra.

A lua
Carregando as andorinhas vem me dizer liberdade
E me invade a tremenda vontade de gritar
Vivendo atrás das grades
Meu amor pode me esquecer

Do lado de cá
Fico até escurecer
Vendo o sol cair no quadrangular, meu amor é do lado de cá

(Trecho de ‘Liberdade Sonhada’, escrita por Salgadinho, Juninho e Edu)

Com tanto tempo de carreira e até hoje tendo suas músicas sendo cantadas por gentes de várias gerações, Salgadinho se considera um verdadeiro vencedor. “Passar dos 20 anos, de onde eu venho, pode-se dizer que é um milagre. Completar 50 e construir uma história vitoriosa no cenário da música brasileira nunca foi e nunca será fácil, então acredito que, pessoalmente, tenho que comemorar muito”.

Salgadinho canta o amor e as mazelas do povo da periferia (Foto: Divulgação/Facebook)

A voz que canta e protesta

‘O Cardeal do Samba. Memórias de Seu Carlão do Peruche’, de Bruno Sanches Baronetti, e ‘Casa Verde: Uma pequena África paulistana’, de Tadeu Kaçula, são os dois livros de cabeceira de Salgadinho. Na leitura e nas ruas, o artista busca aprendizado constante para continuar inspirando seu povo.

“Gostaria de ser mais voz para ajudar minha gente. O meu som tem identidade e identificação com o romantismo. Isso não dá para mudar, apesar de já ter me inclinado a protestos no meu som. Ainda assim, acredito que colaboro de forma positiva, com minha postura e posicionamento”, conta.

Paulo Salgado sai do lugar comum e assume posições contundentes sobre o momento atual do Brasil. O sambista deixa claro que, em tempos sombrios e de ameaça à liberdade e à cultura popular, não há espaço para a omissão. Ao mesmo tempo, revela toda a sua angústia por ver um povo que não se mobiliza contra barbáries crescentes.

“A minha fala sempre vai partir da perspectiva da origem, da realidade de onde venho. Isso causa, por vezes, estresse e desconforto, porém estamos atravessando um momento obscuro. A sociedade, na minha opinião, está em estado de inércia e, de certa forma, anestesiada. A empatia secou, as pessoas não conseguem se enxergar nas verdadeiras classes às quais pertencem. Esse, para mim, é um dos maiores problemas. O povo mais carente está sofrendo muito”, lembra Salgadinho.

Uma voz preocupada com os rumos do Brasil (Foto: Divulgação)

O cantor se entristece ao falar sobre a sociedade brasileira nos tempos de Jair Bolsonaro e o elitismo que oprime o povo da periferia. “Vivemos num país de ricos e pobres. A classe emergente se sente rica, porém não é. Mas esta traz em si o sentimento dessa pequena classe rica dominante. Todos puderam acompanhar a infeliz fala do [ministro da Economia] Paulo Guedes sobre as empregadas irem para a Disney. Esse é o sentimento que a chamada classe média carrega”.  

“Os emergentes são somente cães de guarda da elite, mas não sabem. Não sabem também que nunca participarão do chamado ‘banquete’. Porém, infelizmente, estão fortalecendo a ideia do fascismo. Muitos sem saber, outros sabendo que apoiam”, lamenta.

Dono de sorriso fácil quando está nos palcos, Salgadinho é consciente sobre a realidade brasileira extrema-direitista, de racismo institucionalizado e intolerância religiosa. “É difícil, é triste ter de aceitar que, de um momento para outro, regredimos mais de 50 anos”, aponta o artista, que deixa o otimismo de lado diante do contexto atual. “Vejo muita gente lutando pelo poder, lutando para prevalecer a despeito do próximo, a despeito do povo. Infelizmente, não vejo [solução] a curto prazo, não vejo”.

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