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Música

61 anos sem a música que ficou congelada num milharal de Iowa

Numa madrugada congelante de fevereiro de 1959, o avião que levava Buddy Holly, Ritchie Valens e JP Richardson caiu, encerrou os anos 1950 e foi para a história

A capa do jornal do dia seguinte (Foto: Reprodução)

Um estouro. Foi o suficiente para transformar a madrugada de 3 de fevereiro de 1959 num dia inesquecível no rock ‘n roll. 61 anos depois aquele 3 de fevereiro não acabou. As primeiras horas da manhã daquele dia revelaram a notícia cruel e irreversível: estavam encerradas as trajetórias curtas e marcantes de três talentos da música dos Estados Unidos. A noite congelante dos milharais do Iowa, em meio ao inverno, roubou Buddy Holly (22), Ritchie Valens (17) e JP ‘The Big Bopper’ Richardson (28).

Os três – com Holly como atração principal e Valens como o nome mais em destaque no momento – faziam parte de uma turnê chamada The Winter Dancy Party, que viajava o Meio Oeste dos Estados Unidos em pleno inverno de 1959 e ainda contava com o grupo Dion and The Belmonts. A turnê começara em janeiro e deveria cobrir 24 cidades em 24 noites, mas fora projetado com problemas: não havia uma linha reta ou ao menos sensata para passar por todos os destinos, com os músicos sendo obrigados a ziguezaguear pelo país em meio a temperaturas baixíssimas.

Após 11 dias de shows e três passagens diferentes pelo estado do Minnesota, o grupo teria que deixar Clear Lake e partir novamente para o estado dos lagos congelados no dia 3 de fevereiro, quando iria até a cidade de Duluth para depois, inacreditavelmente, voltar a Iowa.

As loucas viagens de ônibus, porém, eram problemáticas. O veículo estava longe de ser um garoto novo e, em condições precárias, quebrou na estrada algumas vezes diferentes, deixando o grupo à mercê do violento frio local que forçou a primeira baixa: o baterista da banda de apoio a Holly, Carl Bunch, precisou ser hospitalizado com congelamento de vários dedos do pé. Exausto e sem roupas limpas, Holly resolveu buscar um auxílio para a longa viagem que faria entre os dias 2 e 3: conversou com o gerente da casa de shows de Clear Lake e pediu uma indicação para um avião que pudesse alugar.

De fato, Holly fez os contatos e pagou o avião: 36 dólares por cabeça, um preço caro para um grupo de músicos em começo de carreira. O avião, um Beechcraft Bonanza, tinha lugar para mais três passageiros além do piloto. Holly fez a reserva para os dois membros restantes de sua banda: o baixista Waylon Jennings e o guitarrista Tommy Allsup. Desde a saída de Bunch, o baterista dos Belmonts havia assumido o instrumento. Nenhum dos músicos subiria no avião.

O óculos como o de Holly no local do acidente (Foto: Surf Ballroom)

Bopper, sujeito de corpo largo, vivia desconfortável no ônibus e estava gripado. Por isso, pediu o lugar de Jennings, que cedeu. Jennings, que aprendera a tocar baixo para a turnê, seguiria na carreira e se tornaria grande parceiro de Willie Nelson e Johnny Cash. Antes de deixar o clube, Allsup passou pelo camarim e cruzou com Valens. Segundo as palavras dele próprio, no documentário ‘The Day the Music Died‘ (1999): “Ritchie estava dando autógrafos e, por algum motivo, virou para mim e disse ‘vai me deixar voar?’. Joguei um cara ou coroa, e ele escolheu cara”. Valens ficou com a vaga no avião.

Enquanto os parceiros partiram no ônibus para Minnesota, os três foram levados até o aeroporto de Mason City, em Iowa, onde embarcaram no avião de pequeno porte pilotado por Roger Peterson, piloto de 21 anos. A decolagem aconteceu durante a aproximação de forte nevasca que tornava as condições de visibilidades impróprias para voo. Como o aeroporto era pequeno e já era madrugada, Peterson não recebeu o aviso sobre a tempestade na rota que tomaria e tampouco era piloto certificado para pilotar em condições de não-visibilidade. O avião voou por 2km antes de cair num milharal de solo congelado a cerca de 250 km/h, onde bateu com uma das asas no chão e capotou diversas vezes até se enrolar numa cerca de arame farpado. Os três passageiros foram jogados para fora da aeronave e morreram instantaneamente.

Buddy Holly – o inovador inveterado

Quantas estrelas do rock você consegue imaginar usando óculos de grau no palco? Puxe pela memória. São poucas, quase nenhuma, mas foi Holly quem abriu a estrada. Anos depois, John Lennon, que se dizia “tão cego quanto uma abelha”, admitiu que Holly foi a grande inspiração para não temer o palco mesmo que os óculos fossem um tabu. Lennon e Paul McCartney, aliás, eram grandes fãs de Holly e, reza a lenda, nomearam sua banda de Beatles em homenagem aos Crickets de Holly. Quando foram tocar pela primeira vez no popular ‘Ed Sullivan Show’, programa de TV dos Estados Unidos, em 1964, Lennon fez questão de questionar o apresentador se aquele era o mesmo palco onde Holly estivera anos antes. Eric Clapton e Keith Richards são outros dois seguidores fervorosos de uma vida inteira, assim como Jimi Hendrix foi um dia. Bob Dylan inclusive chegou a assistir um show de Holly na Winter Dance Party dois dias antes do acidente e, nos anos 1990, dedicou a ele um Grammy.

Os Crickets foram formados em 1957 e acabaram no fim de 1958, após alguns sucessos estrondosos impulsionados por Holly, mas o desejo dos companheiros de que deixasse a estrada. Pelo dinheiro – porque algumas tramas do produtor responsável pela banda, Norman Petty, deixaram o músico longe da fortuna – e para estourar a carreira solo é que Holly foi para a turnê de inverno. Mas o que faz uma carreira tão curta servir de inspiração tão duradoura para a música? Holly era um sujeito no qual era possível mirar. Não havia ali a voz ou beleza de Elvis Presley ou a insana velocidade de boxeador nas mãos como Chuck Berry. Holly era a afirmação de que era possível ser uma estrela do rock com esforços.

Havia mais, claro. Além do carisma de vizinho famoso e das letras gostosas escritas por ele próprio, Holly era mestre na arte de desenvolver arranjos corajosos e já se produzia no final dos Crickets. Foi Holly quem popularizou o esquema de duas guitarras, baixo e bateria em gravações, bem como o esquema de cantar nos shows junto de gravações pré-feitas de modo a ampliar a voz ao vivo. Recursos como o autotune, utilizado hoje em dia, nasceram décadas depois na mesma esteira. E, claro, foi o responsável por transformar em mística a Fender Stratocaster, sua guitarra de estimação e com a qual tirava potentes solos. De acordo com Bruce Eder, da ‘All Music’, um dos sites musicais mais antigos da internet mundial – existe desde 1994 online – Holly foi “a força criativa mais influente dos primórdios do rock”.

Quando morreu, Holly estava casado há seis meses e sua esposa, Maria Elena Santiago, estava grávida. Santiago soube da morte do marido pela televisão e sofreu um aborto espontâneo dias depois por conta dos danos psicológicos causados pelo incidente. Aos 87 anos de idade atualmente, ela ainda cuida do espólio musical deixado por Holly.

Ritchie Valens – o furor juvenil

Apesar da história ter consagrado Holly como o maior nome entre as vítimas daquele acidente, era Valens que brilhava com mais vigor naquele período. Pudera, enquanto Buddy partia para superar o período de Crickets, Valens lançava o primeiro álbum da sua carreira. Recém-saído do colégio, o adolescente de Los Angeles e filho de família mexicana deixou de ser Ricardo Valenzuela, anglicanou o nome sob conselho do produtor Bob Keane, e se tornou o primeiro rockstar de origem latina.

Os três singles lançados por Valens em 1958, ‘Come On Let’s Go‘, ‘Donna’ e ‘La Bamba‘, músicas tremendamente diferentes entre si, estouraram. ‘La Bamba’ era um desbunde: colocava rock numa antiga música folk mexicana, um fortíssimo baixo e letra totalmente em espanhol. O maior ídolo adolescente do rock naquele momento partiu para a primeira turnê da carreira no começo de 1959.

O legado de Valens, apesar do pouco tempo e da quantidade bastante curta de gravações, é a terra semeada para os rockeiros latinos que seguiram nos Estados Unidos, como a banda Los Lobos.

JP Richardson – o rockeiro cômico

O Big Bopper cunhou o próprio apelido enquanto fazia aquilo que, para todos os efeitos, gostava mais: ser DJ de rádio. Apaixonado por música e rádio, chegou a ficar no ar por mais de cinco dias diretos na estação texana KTRM. Richardson começou a compor – sucessos como ‘White Lightning‘, um country gravado por George Jones, e ‘Running Bear‘, que atingiu a liderança das paradas com Johnny Preston.

Acabou sendo convidado a gravar. Com um vozeirão de locutor, Bopper assumiu uma persona de um conquistador cômico em suas músicas e foi assim que emplacou os dois grandes sucessos: ‘Big Bopper’s Wedding‘ e o principal deles ‘Chantilly Lace’.

Richardson tinha uma filha pequena e a esposa estava grávida na época da turnê, assim como a de Holly, e, apesar de não gostar da ideia da longa viagem, sabia que o dinheiro não era de se jogar fora. Foi no que, assim como Valens, era a primeira vez num tour de longa duração.

O trio representava uma injeção de ânimo e criatividade no rock dos Estados Unidos. Naquele fim dos anos 1950, como ‘The Day The Music Died’ retrata, Elvis Presley servia ao exército, Little Richard virara pastor, Chuck Berry logo seria preso após uma complexa situação envolvendo uma menor de idade, uma acusação de viagem interestadual para fins de prostituição e um juri 100% branco, enquanto Johnny Lee Lewis enfrentava uma avalanche pública por ter se casado com a prima de 13 anos de idade. Além disso, nomes influentes como Hank Williams e Johnny Ace também morreram nos anos 1950 e criaram um vácuo no rock americano que só seria preenchido com a popularização dos Beatles no lado de cá do Atlântico. O acidente colocou o rock americano em colapso.

AMERICAN PIE

A grande recuperação da memória do trio e do destaque histórico do acidente como um acontecimento indelével da música aconteceu em 1971. Don McLean foi um dos nomes da geração da segunda metade dos anos 1960 que recuperara o crescimento do rock dos Estados Unidos. Quando no começo dos anos 1970 lançou o segundo álbum de estúdio, ‘American Pie’, a música homônima que encabeçava o trabalho trazia uma letra melancólica e ritmo vibrante que rapidamente ganhou notoriedade.

A long, long time ago
I can still remember
How that music used to make me smile
And I knew if I had my chance
That I could make those people dance
And, maybe, they’d be happy for a while

But February made me shiver
With every paper I’d deliver
Bad news on the doorstep
I couldn’t take one more step

I can’t remember if I cried
When I read about his widowed bride
But something touched me deep inside
The day the music died

So, bye-bye, Miss American Pie
Drove my Chevy to the levee
But the levee was dry
And them good old boys were drinkin’ whiskey and rye
Singing: This’ll be the day that I die
This’ll be the day that I die

Os primeiros três versos da música e a primeira aparição do refrão eram misteriosos, mas não demorou até que McLean confirmasse que se tratava de uma homenagem às vítimas daquele acidente – o disco, inclusive, era dedicado a Holly. A música folk de quase 9min de duração se tornou um clássico não apenas pela referência ao 3 de fevereiro de 1959, mas especialmente porque batizou ali, 12 anos depois, aquele fatídico dia como ‘O dia em que a música morreu’.

Letra e melodia de ‘American Pie’ são tão lindas quanto sigilosas: McLean sempre falou se tratar da perda da inocência da geração dos anos 1950, a turbulência dos anos 1960 e a desilusão completa para o 1970 que começava. As referências são diversas e contam com grupos que se reúnem até hoje para encontrar significados escondidos. Mas isso é conversa para outro momento. Escutem as músicas indicadas e mais destes desbravadores do rock norte-americano.

No ‘Ed Sullivan Show’ onde Lennon perguntaria por ele anos depois

Fato é que ‘American Pie’ reabriu as histórias dos músicos mortos no acidente de Iowa. Em 1978, o filme ‘The Buddy Holly Story’ foi lançado com certo sucesso e rendeu até uma indicação ao Oscar para Gary Busey, que interpretou o cantor. Depois, em 1987, foi a vez de ‘La Bamba’ levar ao cinema a história de Valens, interpretado por Lou Diamond Phillips: um clássico das cinebiografias e vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama.

3 de fevereiro será sempre um dia triste para a música, mas, em contrapartida à morte da música cantada por McLean, há também a versão de Dion DiMucci, um dos membros da Dion and the Belmonts: “Não foi o dia em que a música morreu: foi o dia em que a música explodiu. A não ser que uma semente caia no chão e morra, ela não dá frutos. Buddy Holly foi o modelo para os Beatles, os Stones, Jimi Hendrix, as bandas de rock… Rock ‘n Roll!”

O que seria dos três caso o avião não tivesse caído, onde poderiam chegar? São discussões inúteis, porque legados se complicam com o tempo. A morte deixou Holly, Valens e Bopper eternizados no tempo e na música.

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