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Ricardo Boechat se foi há um ano, mas continua muito atual

Mestre do jornalismo, Ricardo Boechat morreu em 11 de fevereiro de 2019, vítima de acidente de helicóptero. Contudo, mesmo um ano depois da sua partida, continua sendo fundamental

Carismático, controverso, gênio, mestre, polêmico, irreverente, perfeccionista, anárquico, exigente, verdadeiro. Ricardo Boechat foi um pouco de tudo isso ao longo dos seus 66 anos de vida. Sua voz se calou de forma trágica há exatamente um ano em razão de um acidente de helicóptero que matou também o piloto Ronaldo Quattrucci. À época, Boechat, que também era âncora do Jornal da Band, vivia o auge da sua carreira nos microfones da BandNews FM.

Boechat se foi em 11 de fevereiro de 2019 e deixou enorme vazio nesses tempos sombrios de ameaça ao jornalismo e à liberdade, mas seus pensamentos e sua voz seguem sendo mais atuais do que nunca.

Desde sua morte, dois livros foram lançados para destacar seu legado e sua memória no jornalismo e na vida. ‘Eu Sou Ricardo Boechat’, escrito pelo jornalista e parceiro de bancada na BandNewsFM, Eduardo Barão, e ‘Toca o Barco: Histórias de Ricardo Boechat contadas por quem conviveu e trabalhou com ele’, de Bruno Thys e Luiz André Alzer. A obra traz depoimentos de muitos profissionais que atuaram ao lado do jornalista ao longo da carreira.

Corajoso, Boechat expôs a si mesmo e, com muita franqueza, revelou um drama que o tirou do ar por cerca de 15 dias. Antes de entrar no ar na BandNews FM, Ricardo simplesmente travou e, como ele descreveu, ficou com a sensação de que “o peito iria explodir”.

Levado pela esposa, a ‘doce Veruska’, Boechat soube que acabara de sofrer um surto de depressão. E ao falar publicamente sobre o assunto, encorajou muitos ouvintes a não esconder a doença e a encará-la de frente. “É importante aceitá-la e combatê-la”, afirmou no seu depoimento na rádio logo que voltou ao ar.

Defensor da democracia, o jornalista criticou o nefasto discurso do então deputado Jair Bolsonaro no plenário do Congresso Nacional durante a sessão de impeachment da ex-presidenta Dilma Roussef. O parlamentar provocou repulsa ao exaltar o nome de um dos maiores torturadores do regime militar, Brilhante Ustra, autor do livro de cabeceira do atual presidente.

“Torturadores não têm ideologia. Torturadores não têm lado. Torturadores são apenas torturadores. É o tipo humano com o nível mais baixo que a natureza pode conceder. São covardes, assassinos e não mereciam, em momento algum, serem citados como exemplos, muito menos, numa casa legislativa que carrega o apelido de ‘Casa do Povo’”, disse Boechat em abril de 2016.

Em vários comentários, Boechat falou sobre a morte de Marielle Franco e Anderson Gomes e os possíveis mandantes dos assassinatos. E explicou os ramos de atuação das milícias no Rio de Janeiro. O assunto, na esteira de um crime que ainda não foi esclarecido, voltou à tona neste fim de semana depois da morte do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, ligado a Flávio Bolsonaro.

Na sua última manhã de sua vida, Boechat falou sobre as tragédias de Brumadinho e do Ninho do Urubu e da impunidade recorrente diante de tantas mortes que poderiam ter sido evitadas. Seu comentário é tão atual que parece ter sido feito neste 11 de fevereiro de 2020.

Nenhum grande nome da Vale, por exemplo, foi preso, e até hoje, em caso que envergonha o esporte brasileiro, nenhum dirigente do Flamengo foi responsabilizado pela tragédia no centro de treinamento. E, pior, falta sensibilidade aos homens que comandam o clube mais rico do Brasil e se recusam a alcançar um acordo que seja vantajoso para as famílias das vítimas dos dez meninos mortos. Um cenário vergonhoso que certamente seria criticado duramente pelo flamenguista Ricardo Boechat.

O legado de Ricardo Boechat

Argentino de nascimento, mas carioca de coração, Ricardo Eugênio Boechat era o segundo dos sete filhos de Dalton, funcionário da Petrobras e militante do Partido Comunista nos tempos de ditadura militar, e de Dona Mercedes, batalhadora argentina que fora criada em Montevidéu. Dos pais — Dalton e Dona Mercedes foram presos durante a ditadura —, Ricardo herdou a cultura, o senso crítico e o apreço pela democracia.

Boechat estudou até o antigo segundo grau, hoje ensino médio. Sua formação jornalística foi prática, sobretudo pelos 12 anos trabalhando ao lado do rígido colunista Ibrahim Sued no ‘Diário de Notícias’.

Com destaque cada vez maior pelas notas exclusivas e pelo faro jornalístico, Ricardo Boechat cresceu e alçou voo solo. Passou a assinar sua própria coluna e se notabilizou pelos trabalhos feitos em veículos como ‘Jornal da Tarde’ e ‘O Globo’. No impresso, desenvolveu a busca obstinada pela perfeição, pela informação de qualidade e pela rigidez na apuração dos fatos. Orgulhava-se em mostrar as orelhas calejadas, frutos de horas e horas de ligações no telefone com as suas fontes.

Dos jornais, teve a chance de trabalhar na Rede Globo como colunista do ‘Bom Dia Brasil’ a partir de 1997, onde ficou até 2001, sendo protagonista de uma demissão controversa por conta de uma conversa telefônica grampeada e divulgada pela revista ‘Veja’.

Nela, Boechat revelou a Paulo Marinho os termos da reportagem que estava escrevendo. Marinho era assessor de Nelson Tanure, ligado ao grupo canadense TIW e então acionista majoritário do ‘Jornal do Brasil’, além de ser fonte de longa data do jornalista. Tanure travava uma guerra com Daniel Dantas, presidente do Banco Opportunity, pelo controle das operadoras Telemig Celular e Tele Norte Celular. Na conversa, Boechat contou a Paulo o teor do texto que seria publicado sobre a disputa no setor de telefonia, além de expor procedimentos internos da publicação. A direção das Organizações Globo, tão logo soube da reportagem de ‘Veja’, optou pela demissão de Boechat.

Ficou fora do ar por três anos, até ser contratado pelo Grupo Bandeirantes. Foi lá que o jornalista deu a volta por cima e viveu alguns dos melhores momentos da sua vida profissional. Foi elevado à condição de âncora do ‘Jornal da Band’ depois da ida de Carlos Nascimento para o SBT.

Mas o jornalista alcançou o auge mesmo na BandNewsFM. Na rádio do Morumbi, Boechat desenvolveu uma capacidade ímpar de se comunicar com todas as camadas da sociedade todas as manhãs: donas de casa, taxistas, advogados, empresários e políticos. Foi quando muitos passaram a considerá-lo como o melhor jornalista em atividade no Brasil.

Até o fim da vida, Ricardo era uma figura temida por autoridades, acumulou centenas de processos, mas jamais se furtou a colocar o dedo na ferida e tecer críticas quando julgava necessário. Colocava o ouvinte como protagonista, a ponto até de dar seu número de telefone no ar para encurtar essa distância e, claro, conseguir furos de reportagem.

Ácido e sarcástico, formou inesquecível dobradinha com José Simão. Os dois arrancavam gargalhadas dos jornalistas dentro do estúdio e de milhares de ouvintes nas suas casas, escritórios ou nos carros com suas críticas irreverentes. Curiosamente, os dois só se encontraram pessoalmente uma vez, em Paris.

Ricardo Eugênio era um profissional incansável e que mergulhava de cabeça no trabalho. Mas também era generoso a ponto de ajudar muitas pessoas financeiramente ao pagar, por exemplo, estudos e tratamento médico.

Ateu convicto, Boechat transbordava amor. Não se cansava de falar da ‘doce Veruska’ nas suas transmissões e exaltava a mãe, Dona Mercedes. Tinha orgulho dos seis filhos, que teve a chance de reunir na véspera da sua morte: Beatriz, Rafael e Paula, frutos da união com Claudia Costa de Andrade; Patrícia, filha também de Ana Reis; e Valentina e Catarina, filhas de Veruska Seibel, sua última esposa.

Sincero, não tinha pudor ao falar de si mesmo. Revelou ao público sua batalha contra a depressão e encorajou muitos a fazer o mesmo, mostrando que por trás daquela genialidade atrás das câmeras havia um ser humano sensível e envolto aos seus conflitos pessoais.

Não poucas vezes, Boechat revoltava contra os desmandos de políticos e empresários e ia a fundo ao criticar as atrocidades de figuras abjetas e inescrupulosas, bem como as mazelas de um injusto Brasil. Dono de uma carreira laureada no jornalismo, com nada menos que 18 prêmios Comunique-se e três prêmios Esso, Ricardo Boechat se orgulhava mesmo por falar ao coração do ouvinte mais humilde e também pelo desprezo aos mais poderosos.

Os últimos dias, sabemos, não têm sido nada fáceis. Mas seguimos seu lema e muitas das suas lições, Boechat. E aqui vamos nós, sempre tocando o barco.

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