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De formas distintas, Folha, Globo News, Estadão e CNN colaboram com a despolitização no Brasil

Pós-política e ultrapolítica pautam as narrativas dos principais veículos da imprensa brasileira

Reprodução

Não é de hoje que boa parte do Brasil tenta entender o que nos levou a esse cenário político e social desastroso. Com mais de 100 mil mortes causadas pela pandemia de coronavírus, o país volta ao trabalho, aos bares e aos shopping centers. O presidente, de acordo com pesquisa do Datafolha, experimenta seus melhores índices de aprovação desde que foi eleito. 

Não há somente um culpado pela situação que vivemos hoje, mas um deles é, sem dúvida, o nosso jornalismo. Os grandes veículos de comunicação brasileiros colaboram para a despolitização que nos levou a esse cenário. Observemos as atuações de Folha, CNN Brasil, Globo News e Estadão.

Globo News, Folha e a pós-política

Pra nos ajudar nessa explicação, pegamos emprestado os conceitos de pós-política e de ultrapolítica utilizados pela socióloga e youtuber Sabrina Fernandes em seu livro Sintomas Mórbidos (Autonomia Literária). 

O canal fechado da maior emissora de TV do Brasil, a Globo News, e um dos jornais de maior circulação no país, a Folha de S. Paulo, apelam quase sempre para o que Fernandes chama de pós-política. Ela nos conta que “pós-política é um tipo de despolitização que age no campo do senso comum como uma forma de pós-ideologia, na qual assuntos relacionados a status político, social e econômico são efetivamente gerenciados. Esse gerenciamento dá a impressão de que não há luta ou disputa de projeto a ser feita. Isso quer dizer que a disputa influenciada diretamente por posições ideológicas é rejeitada; ou seja, o fazer da política torna-se subordinado a uma presumida imparcialidade atribuída a tecnocracia e aos especialistas esclarecidos”, diz. 

Em exemplo disso é o debate sobre o teto de gastos, aprovado ainda no governo Michel Temer, e que congela os gastos públicos em áreas como saúde e educação por 20 anos. Em nome de uma suposta responsabilidade fiscal, o Conselho nacional de Saúde já afirmou que o SUS pode perder R$ 35 bilhões em 2021 caso o regra do orçamento emergencial por conta da pandemia não exista mais.

A Globo News, em um suposto debate sobre a volta ou não do teto de gastos em 2021, convidou dois especialistas liberais para defender a volta do teto. Por mais que a professora da USP e crítica do teto Laura Carvalho também tenha participado do debate, o viés do canal é claramente pró-reformas, abraçando discursos e narrativas falsas como “precisamos tratar das contas públicas como uma família cuida das contas de casa”. E quem pensar diferente é logo chamado de populista. A Folha, por sua vez, publicou um editorial (confirmar data) defendendo a importância da manutenção do teto que asfixia os serviços públicos.

CNN e Estadão: o falso debate da ultrapolítica

Desde que chegou ao país a CNN tem apostado no formato de debates. Pouco importa se um lado defende a barbárie, o que vale mesmo é o compartilhamento nas redes. Tudo feito em nome da pluralidade de opiniões.

Por mais que a postura do grupo estadunidense seja de suposto antagonismo com o da Globo News, ele também pode fomentar a despolitização, mas por conta do discurso da ultrapolítica.

Fernandes explica que, ao contrário da primeira postura, que visa trocar a disputa política por um discurso técnico que estaria acima do bem e do mal, a ultrapolítica investe em uma falsa polarização construída para “favorecer o novo modelo de gestão”.

“O antagonismo é despolitizado, e todos os afetos de desamparo e rebeldia provenientes da disputa material são sublimados em afetos manipulados e mais facilmente geridos pelas autoridades durante uma guerra: o ódio e medo. Ambos precisam ser puros e direcionados. Essa pureza impede uma verdadeira confrontação, e os conflitos materiais são substituídos por conflitos construídos politicamente pelos mobilizadores e instigadores ultrapolíticos”, explica.

Nesse sentido a emissora abre espaço para posições totalmente falsas como a de Caio Copolla, que comparou a pandemia de covid-19 com mortes por engasgamento, e de Alexandre Garcia, que disse que as pessoas estão morrendo por não tomarem hidroxicloroquina, remédio que não tem qualquer comprovação na superação da doença. 

Se não chega ao ponto de dar espaço para pessoas como Coppola e Garcia, o Estadão apela para falsas simetrias, em que escolhas entre fascismo e democracia são contrapostas como “uma escolha muito difícil”.

O resultado de ambas as narrativas acaba sendo a despolitização. A primeira acredita que há uma superioridade dos discursos supostamente técnicos sobre o político a ponto de figuras como o governador de São Paulo João Doria (PSDB) e os representantes do Partido Novo se denominarem “gestores”. Como se a ética privada estivesse acima da pública. Já a segunda está mais a serviço da extrema direita olavista que ganhou espaço no governo Bolsonaro. Mas as duas tentam se colocar como acima de qualquer ideologia e são autoritárias a sua maneira. O desânimo niilista de parte da população é uma das consequências de posições como essas.

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