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A quem interessa o jornalismo que fala grosso com o povo e fino com o poder?

Lugares comuns como ouvir os dois lados podem fazer sentido a princípio, desde que não abra espaços para absurdos

O jornalismo é cheio dos lugares comuns. Praticamente desde o primeiro dia de aula na faculdade o professor vai te falar para “ouvir os dois lados” de uma pauta. Nada mais justo, alguém pode dizer. Injustiças terríveis podem acontecer caso isso não seja seguido como princípio básico de toda a reportagem. E vão te falar sobre o caso Escola Base, um dos principais erros jornalísticos da história do Brasil.

Mas, e sobre o caso da CNN Brasil, que resolveu dar voz a um neonazista foragido na justiça para atacar um suposto grupo antifascista? Não seria aí um limite para o discurso do ouvir os dois lados? 

Outra frase que você vai ouvir bastante é: “jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. A máxima de Millôr Fernandes serve para aqueles que se colocam como últimos paladinos da crítica jornalística. No Brasil de Bolsonaro, isso sucumbiu rapidamente para o “doisladismo”, tendo o famoso editorial “uma escolha muito difícil” do jornal O Estado de S. Paulo como pedra fundamental.

Mas, voltando a frase de Millôr, o jornalismo deve ser oposição a quê? A quem? Ao governo em vigor ou aos poderosos? Quando, por exemplo, grandes redes de comunicação defendem a política de Paulo Guedes, elas estão defendendo quem? A minoria de grandes empresários ou o povo trabalhador? Quando levaram ao estrelato figuras como Sergio Moro e Deltan Dallagnol por conta da Operação Lava Jato, pode-se dizer que estavam fazendo o certo só por conta da operação ser contrária ao governo da época? E quando essas mesmas figuras se alinham a Jair Bolsonaro, que banda vão tocar? E agora que o ex-ministro super-herói pulou do barco, mas o ministro do mercado segue nele, o que vão fazer?

Na última terça-feira (9) o programa Cidade Alerta, da Record TV, levou ao ar uma matéria de arrepiar os cabelos. No GC se lia: “Agiota encontrado morto. Há relatos de briga com a amante”. A repórter Luiza Zanchetta conversou com a filha da vítima, Amanda, que negou que seu pai era um agiota. Logo depois, a repórter disse que a polícia não confirmava a informação, mas que vizinhos que ela conversou haviam garantido que ele emprestava dinheiro a juros. “Você concorda que não devemos descartar essa possibilidade?”, perguntou Zanchetta a Amanda, como se fosse responsável por alguma investigação policial. O apresentador Luiz Bacci, com a arrogância de sempre, tentou amenizar a situação dizendo que “é o de menos se ele era ou não agiota”. Para Bacci talvez, de fato, seja de menos, mas e para a família que teve um membro exposto na TV, como fica?

A própria Record, no longínquo 4 de março, falou finíssimo com o presidente Jair Bolsonaro quando um de seus contratados, o humorista Marvio Lúcio, o Carioca, apareceu na entrevista coletiva sobre o crescimento de 1.1% do PIB em 2019, fazendo com que Bolsonaro se esquivasse de responder as perguntas dos jornalistas. Ele ainda ofereceu bananas aos profissionais presentes. Recentemente, também escondeu no final de seu principal telejornal o fato do governo mudar a metodologia de cálculo dos mortos pelo coronavírus.

Em um momento em que o jornalismo está sob forte ataque do governo mas também encara a desconfiança de grande parte da população, é preciso se perguntar: a quem interessa esse jornalismo que está pronto pra rosnar para o povo, mas que está sempre a espera de um carinho dos poderosos?

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