Siga-nos

Esportes

O touro veste Braga: o time que vende a alma pela sobrevivência

Ao assinar parceria com a Red Bull, o Bragantino se fortalece, volta à Série A do Brasileirão e traz perspectivas outrora inimagináveis. Contudo, ainda que mantenha uma torcida fiel, perde identidade e, principalmente, abre mão da alma interiorana para seguir existindo

Com exceção do Flamengo, nenhum outro clube do futebol brasileiro gastou mais neste começo de temporada 2020 que o Red Bull Bragantino. A empresa dos energéticos deu ao time da terra da linguiça a chance de renascer e sonhar com a chance, antes impensável, de buscar títulos e ser protagonista. A parceria teve início ainda no ano passado, e a união já se mostrou bastante forte, a ponto de ajudar o clube interiorano a conquistar a taça da Série B e levá-lo de volta à Série A depois de mais de 20 anos.

Sobrevivência garantida, R$ 200 milhões em caixa para gastar com reforços, marca fortalecida na mídia e oportunidade de ouro para voltar a ser protagonista do futebol brasileiro, como foi no início dos anos 1990. Um cenário praticamente perfeito, não?

Quase isso. Para viver esse momento ímpar da sua história, o ‘Massa Bruta’ teve de vender a alma ao diabo. Ao fechar com a Red Bull, talvez a marca que mais apoia o esporte ao redor do mundo, o Bragantino ganhou o direito de voltar a sonhar. Mas, em contrapartida, perdeu identidade, com nome do clube, escudo e camisa agora pertencendo a quem paga a conta.

Vale a pena? Só o tempo vai dizer. A história recente do futebol brasileiro remete a alguns exemplos não necessariamente bem-sucedidos. Ainda na década de 1990, Palmeiras e Parmalat assinaram um contrato de cogestão que deu ao time do antigo Parque Antarctica a chance de virar protagonista do esporte nacional, contratar uma verdadeira seleção brasileira e alcançar títulos paulistas, o bicampeonato brasileiro e a conquista do seu maior título, a Libertadores da América, em 1999.

Mas tão logo a parceria com a multinacional italiana se desfez, o Palmeiras ruiu como um castelo de cartas e sentiu duramente o baque com a falta de grana. Ainda que tivesse conquistado alguns títulos desde então, como o Paulista de 2008 e a Copa do Brasil de 2012, o alviverde amargou dois rebaixamentos neste período e quase caiu pela terceira vez. Novamente, coube a um mecenas — Paulo Nobre, no caso —, salvar a agremiação, que hoje está nas mãos de outra empresa endinheirada, a Crefisa.

Outro caso de sucesso efêmero nas quatro linhas é o do São Caetano. O Azulão despontou para o futebol nacional graças a um forte apoio da prefeitura local. De mero clube pequeno do ABC, o São Caetano virou protagonista e alçou seus voos mais altos: decidiu a Copa João Havelange (em 2000), foi finalista da Libertadores, faturou o título paulista e contratou grandes estrelas do esporte, uma delas o técnico Tite.

Mas a decadência do Azulão começou com a trágica morte do zagueiro Serginho durante partida contra o São Paulo no Morumbi em outubro de 2004. O São Caetano ainda ganhou uma sobrevida ao chegar à final do Paulistão de 2008, sendo derrotado pelo São Paulo, que foi também o campeão brasileiro daquele ano. Daí em diante, a torneira secou: sem o poder público como mecenas, a derrocada foi inevitável. Hoje, o Azulão somente sobrevive na Série A2 do Paulista.

A história mostra que o Palmeiras — dos tempos de Parmalat —, São Caetano e Fluminense não aproveitaram os tempos das vacas gordas para se estruturar. Assim, pagaram alto preço depois que se viram sem dinheiro. Há também exemplos claros de clubes que definham e lutam pela sobrevivência mesmo com dívidas impagáveis, casos de Botafogo e Portuguesa.

Com a Red Bull, o Bragantino tem uma chance de ouro ao inaugurar página interessantíssima na sua trajetória. A empresa austríaca garante que o projeto é de longo prazo e pretende repetir o sucesso obtido com o Red Bull Salzburg, da Áustria: gerar lucro e revelar talentos para a matriz alemã da marca, o Red Bull Leipzig, hoje líder da Bundesliga.

Nos tempos nada românticos de hoje e que são ditados pelos valores financeiros, deixando de lado a tradição, o amor à camisa e a história como um todo, aceitar a proposta taurina foi o único caminho para o Bragantino sobreviver e seguir relevante. Nem que para isso tenha basicamente deixando de ser quem foi.

Assine nossa newsletter

Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas

Publicidade
Trending Now
Publicidade

Relacionados

10 momentos que marcaram a Copa do Mundo de 2010

Esportes

Guerra de liminares e Ratinho comentarista: Paulo Andrade lembra Paulistão no SBT: “Era muito louco”

Esportes

Após fusão com FOX Sports, ESPN decide transmitir Bundesliga

Esportes

Consultor da Red Bull diz que sugeriu infectar pilotos de propósito com coronavírus

Esportes

Publicidade
Assine nossa newsletter

Copyright © 2020 | Todos os direitos reservados.

Connect
Assine nossa newsletter