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Na busca por novos ‘São Jorges’, futebol brasileiro reflete fracasso da cultura resultadista

O sucesso de Jorge Jesus e Jorge Sampaoli em 2019 serviu como referência para que muitos clubes repetissem a receita de Flamengo e Santos. Mas a ânsia por milagres e resultados imediatos denota a falta de paciência dos dirigentes, que torram milhões e destroem o planejamento de um ano inteiro com decisões estapafúrdias

* Colaboração de João Gabriel Falcade e Andrei Paternostro

Depois de muitos anos em que treinadores estrangeiros foram simplesmente demonizados em razão da falta de paciência e/ou planejamento de quem manda nos clubes, 2019 abriu um novo horizonte no futebol brasileiro com as chegadas de Jorge Sampaoli ao Santos, no início do ano e, no começo do segundo semestre, de Jorge Jesus ao Flamengo. Por vias distintas, os dois alcançaram muito sucesso nas suas jornadas e abriram terreno para que mais profissionais gringos pudessem se aventurar, literalmente, por aqui.

Mesmo contando com um elenco limitado e em meio a um clube em permanente crise e com muitas disputas políticas internas, o argentino superou o fracasso no comando do país na Copa do Mundo da Rússia e imprimiu um estilo de jogo encantador ao time da Vila Belmiro, desbancou o milionário Palmeiras e alcançou um improvável vice-campeonato brasileiro. Sampaoli saiu brigado com a diretoria liderada por José Carlos Peres, mas deixou muitas saudades na torcida do alvinegro praiano.

Jesus, mais além do que o xará argentino, surpreendeu pelo encaixe imediato da sua filosofia de jogo e trabalho no Flamengo. A pressão da torcida por grandes títulos era absurda, principalmente em razão dos fracassos recentes e turbinada pelos muitos milhões de reais gastos pelo clube da Gávea na contratação de nomes como Gabigol, Arrascaeta e Rodrigo Caio, por exemplo. Jorge Jesus chegou com a missão de dar o padrão tático que Abel Braga não conseguiu e, claro, levar o rubro-negro aos cobiçados títulos, sobretudo do Brasileiro e da Libertadores.

Com um time milionário e cheio de recursos técnicos, o português alcançou sucesso instantâneo. Caiu nas graças da diretoria, dos jogadores e virou um semideus para a apaixonada ‘nação’ ao liderar uma campanha histórica. Em menos de um ano, Jesus levou o Flamengo à conquista dos títulos do Brasileirão, Libertadores, Supercopa do Brasil, Taça Guanabara e, por fim, na última quarta-feira, da Recopa Sul-Americana. E não fez feio diante do Liverpool no Mundial.

Sucesso de Jorge Jesus despertou o interesse dos clubes brasileiros em treinadores estrangeiros (Foto: Flamengo)

As grandes trajetórias dos Jorges Jesus e Sampaoli também despertaram a ciumeira de alguns treinadores brasileiros. Em um universo carregado de egolatria, não faltaram comentários xenófobos que, na prática, visavam esconder a enorme dor de cotovelo pelo sucesso alheio.

O incrível êxito do português e do argentino foi visto por muitos dirigentes como a fórmula mágica do sucesso no futebol brasileiro. A receita do milagre estava lá: disciplina tática do treinador estrangeiro e o talento do jogador brasileiro. Combinação infalível, não é mesmo?

Vários times partiram em busca de um treinador gringo para chamar de seu. Campeão argentino na temporada 2018/19 com o Racing, Eduardo Coudet foi contratado pelo Internacional para liderar um novo ciclo no Beira-Rio. O catarinense Avaí aproveitou a empolgação com o trabalho de Jorge Jesus e trouxe o português Augusto Inácio, que treinava o Aves, da primeira divisão do país.

O gigante Santos também optou pela solução lusitana e tirou da aposentadoria o lendário Jesualdo Ferreira, multicampeão pelo Porto na década passada, fechando contrato por um ano. E o Atlético Mineiro, há tempos sem títulos relevantes, contratou um dos destaques do futebol sul-americano nos últimos anos: o venezuelano Rafael Dudamel, um dos grandes responsáveis pela ascensão da seleção vinotinto. Vínculo com duração até o fim de 2021.

Por muito pouco, a leva de técnicos estrangeiros não foi maior em 2020. Miguel Ángel Ramírez, espanhol de somente 35 anos e sensação com o equatoriano Independiente Del Valle, foi sondado por times como Santos, Athletico, Palmeiras e Atlético Mineiro. E o luso Carlos Carvalhal foi cotado pelo Red Bull Bragantino para ocupar o lugar de Antônio Carlos Zago, que deixou o time dos energéticos para assumir o Kashima Antlers, do Japão.

Outros nomes, como os argentinos Sebastián Beccacece — considerado discípulo de Jorge Sampaoli — e Ariel Holan também chegaram a ser mencionados no fim do ano, mas não vieram ao Brasil. O próprio Sampaoli negociou diretamente com Palmeiras e Atlético Mineiro, que não aceitaram as exigências do excêntrico treinador.

Rafael Dudamel chegou ovacionado ao Galo. Não durou dois meses no cargo (Foto: Atlético Mineiro)

Início, falta de paciência e fim (precoce)

Descontando o período de treinos e pré-temporada, o calendário do futebol brasileiro tem pouco mais de um mês neste fim de fevereiro. E, inacreditavelmente, já ceifou dois dos estrangeiros contratados no início do ano, tem um deles na corda bamba, enquanto outro parece seguro no cargo.

Com somente sete partidas à frente do Avaí, Augusto Inácio foi demitido do clube alviceleste em 14 de fevereiro após a eliminação para a Ferroviária na Copa do Brasil. O retrospecto foi de duas vitórias, um empate e quatro derrotas, com aproveitamento de 33%.

A fala do português após saída do Avaí é sintomática. “O futebol brasileiro é uma pistola com uma bala lá dentro e uma roleta russa. No Brasil, é mais para morrer do que para sobreviver. No início, é tudo uma maravilha. Dizem que estão conosco, mas é tudo mentira”, criticou. E com razão.

Exatamente duas semanas depois, Rafael Dudamel perdeu o cargo de técnico do Atlético Mineiro junto com toda a comissão técnica, além do diretor de futebol, Rui Costa, e do gerente de futebol, o ídolo Marques. A decisão, que partiu do presidente Sérgio Sette Câmara, veio em razão das eliminações do Galo na Copa Sul-Americana, para o Unión de Santa Fé, na semana passada; e para o Afogados, de Pernambuco, nos pênaltis pela Copa do Brasil, na última quarta-feira.

Havia certo descontentamento com a qualidade do futebol apresentado pelo Galo de Dudamel. Mesmo assim, o retrospecto não era de todo ruim para um trabalho que durou somente dez partidas: quatro vitórias, quatro empates e duas derrotas, com 53,3% de aproveitamento. Novamente, faltou tempo para o venezuelano trabalhar e exercer sua filosofia de jogo.

Jesualdo Ferreira está por um fio no Santos (Foto: Santos/Facebook)

Jesualdo Ferreira, por sua vez, está por um fio no Santos. O veterano português de 73 anos ainda não conseguiu fazer seu time render, amargou derrotas recentes para Corinthians e Ituano e traz um aproveitamento de 52% no Campeonato Paulista, com três vitórias e dois empates. As próximas partidas vão ser decisivas para o futuro do treinador: Palmeiras, no próximo sábado, no Pacaembu; e contra o Defensa y Justicia, na Argentina, na terça-feira, na estreia do Peixe pela Libertadores.

No cruel calendário do futebol brasileiro, praticamente cada partida é encarada como uma pequena decisão. Em teoria, os campeonatos estaduais deveriam servir como uma sequência da pré-temporada e um laboratório para competições como o Brasileiro, a Copa do Brasil, a Libertadores e a Copa Sul-Americana, mas são usados como pano de fundo para justificar a demissão de treinadores e jogar o trabalho traçado para o ano todo no lixo antes que apareça o próximo treinador salvador.

Mas além de todo o prejuízo técnico ao qual os times são submetidos sempre que há uma mudança de treinador — e de filosofia de trabalho —, há o desastre financeiro que rompimentos repentinos de contratos milionários causam aos já combalidos cofres dos clubes brasileiros.

O imediatismo que destrói as finanças

Desde a chegada de Dudamel, o Atlético Mineiro reforçou o elenco com contratações estimadas em mais de R$ 50 milhões: Savarino, Diego Tardelli, Dylan Borrero, Maílton e Guilherme Arana foram nomes trazidos pelo agora ex-diretor Rui Costa. Por muito pouco, o Galo não trouxe Soteldo depois de ter oferecido R$ 51 milhões ao Santos. O Peixe recusou a proposta pelo venezuelano, desejo do ex-treinador para o elenco mineiro.

A saída repentina de Dudamel, além de interromper abruptamente a formação de elenco, leva o Galo a ter de pagar cerca de R$ 1,5 milhão de multa contratual não somente do treinador, mas de toda a comissão técnica, formada também pelo auxiliar Marcos Mathías, pelo preparador físico Joseph Cañas, pelo analista de desempenho Rodrigo Piñón e pelo coach Jeremías Álvarez, todos venezuelanos.

Sem contar que o Galo atingiu menos de 10% do valor previsto em termos de arrecadação com premiações para 2020, estimado em R$ 39,5 milhões. Mesmo se for campeão do Brasileirão, o Atlético não deve faturar mais do que R$ 31 milhões, informa o jornal mineiro ‘O Tempo’.

E caso o Santos decida demitir Jesualdo Ferreira, o custo da rescisão de contrato do português e sua comissão técnica gira em torno de R$ 8 milhões, valor estipulado quando o treinador assinou contrato com o Peixe. Valor altíssimo que compromete um orçamento que já é bastante apertado.

A busca pelo ‘São Jorge’ milagreiro e estrangeiro sucumbiu à velha falta de planejamento do futebol brasileiro, que insiste em não dar tempo de trabalho para seus treinadores e não resiste em demitir depois de uma sequência de resultados ruins. Nem que, para isso, cause prejuízos monumentais com multas milionárias que se juntam a tantas outras e afundam os clubes cada vez mais na lama por administrações ruins e incompetentes. As lições deixadas pelo fracasso recente do Cruzeiro não foram, pelo jeito, assimiladas pelos demais clubes.

E assim caminha a mediocridade do futebol brasileiro.

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