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Maracanã 70 anos: parabéns, apesar de tudo

Na semana em que completou 70 anos, estádio recebeu a volta precipitada do futebol no Brasil

Crédito: Secretaria de Cultura RJ

Ontem (18) aconteceu o retorno do futebol brasileiro em meio à pandemia de coronavírus. O Flamengo, time de maior torcida do Brasil e o Bangu, simpático time que “a torcida reunida até parece a do Fla-Flu” jogaram pra ninguém. O rubro negro venceu por 3 a 0.


Nos 90 minutos de bola rolando, levando em conta o número de 1204 mortos no país durante o dia de ontem, morreram 75 pessoas. Durante todo o dia, duas pessoas morreram no hospital de campanha do Maracanã, ao lado do estádio, que nessa semana completou 70 anos. Mas a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro achou que seria uma boa ideia voltar com o Campeonato Carioca. Alguns torcedores se reuniram do lado de fora para protestar contra a volta do futebol.  

Construído para a Copa do Mundo de 1950, o estádio de tornou um grande símbolo da cidade do Rio de Janeiro e da alma do carioca. Quem diz isso é o cineasta Pedro Asbeg, diretor do filme “Geraldinos” que conta a história da antiga Geral, setor popular do estádio que foi demolido para a realização dos Jogos Pan-americanos de 2007. Ele acredita que, junto com a arquitetura única do estádio, essa alma também está desaparecendo. 

“Foi o maior estádio do mundo por muito tempo e um orgulho muito grande para a cidade. Ele é de muito fácil acesso e a população foi criando essa relação que, como a praia, faz parte da vida e do espírito carioca. A última reforma feita para a Copa descaracterizou o estádio a ponto dele ter se transformado em uma outra coisa. Está no mesmo endereço e tem o mesmo nome, mas é outro estádio”, lamentou. 

O inferno fica lá fora

Desde a Copa do Mundo de 2014 os estádios brasileiros sofreram um processo conhecido como “arenização”. Todos eles tiveram que se adequar ao famoso “padrão Fifa” de tamanho do campo, distância das cadeiras e, principalmente, o fim dos lugares em que os torcedores poderiam assistir o jogo de pé.

O jornalista Breiller Pires destacou a importâncias das classes mais baixas para o futebol ser o que é hoje no país e reforça que a junção de aumento de preço, programas de sócio-torcedor e o discurso que relaciona a violência nos estádios com a presença dos mais pobres mudou o perfil do frequentador das modernas arenas.   

“As classes populares são essenciais para que o futebol se tornasse o que se tornou hoje no Brasil. As mística do estádio e o ambiente do jogo é diferente justamente por conta da presença do povo pobre, negro e trabalhador. Acontece que de uns anos pra cá há um processo de gentrificação do futebol e o Maracanã, infelizmente, é um símbolo disso. A marginalização das torcidas organizadas é um início disso por que grande parte de seus integrantes são das classes mais baixas”, explicou.

Não é raro escutar depoimentos de torcedores que frequentam estádios sobre a mudança do clima das torcidas. Junto com o embranquecimento e a mudança da classe social que o frequenta, os gritos de apoio também foram ficando mais baixos e esporádicos. 

“Não quero ser saudosista, mas o fato de que a Geral tinha os ingressos mais baratos significava que muita gente com pouca grana tinha a chance de estar ali e fazer parte da festa e não ser relegado a TV do boteco. E ali era o lugar de extravasar. Minha vida está muito difícil, eu passo sufoco, sofro com a corrupção, violência, racismo, subemprego e moradia e ali é o momento de gritar. Quando você exclui essa população e começa a fazer o recorte pela classe média, talvez essas pessoas não sintam tanta necessidade de cantar e gritar e você tem uma torcida mais fria”, diz Asbeg. 

Retorno é uma mentira escancarada

O primeiro jogo de futebol em meio ao pico da pandemia acontecer no Maracanã é mais um episódio nesse conto de realismo fantástico que vivemos no Brasil. Ao lado do estádio, fechado para os torcedores, centenas de pessoas estão internadas com covid-19 em um hospital de campanha. 

Negacionaista da pandemia, o presidente Jair Bolsonaro só não estava no estádio porque com certeza tinha questões mais importantes pra resolver, como a prisão do ex-assessor de seu filho Flavio, Fabrício Queiroz, encontrado na casa de seu advogado Frederick Wassef.  

Pires e Asbeg concordam que o retorno é emblemático e mostra como os cartolas de Flamengo e Vasco, que pressionaram a FERJ para o retorno do Campeonato Carioca, estão completamente alienados com a situação do país e que essa volta no Maracanã vazio escancara a mentira que os dirigentes estão encenando.      

“Todos esses fatores mostram a insensibilidade que é muito comum no futebol. Os dirigentes se alienam do que acontece na sociedade, não são capazes de se comover numa pandemia. Essa falta de prudência é muito típica de cartolas que não querem se envolver com os problemas da sociedade, querem se fechar somente na bolha do futebol que só enxerga o jogo como um negócio e não como um fenômeno cultural e social como ele deveria ser encarado”, declarou Breiller.

O que será dos próximos 70 anos?

O Maracanã foi construído para a Copa do Mundo de 1950. Um dos primeiros grandes momentos do estádio foi a final do torneio, quando o Brasil perdeu do Uruguai por 2 a 1 e milhares de telespectadores brancos condenaram in loco o goleiro Barbosa, um negro. 

O tempo passou, a história andou e o estádio se tornou mais democrático até os negros, pobres e trabalhadores serem, novamente, excluídos dele. Pode acontecer um outro giro nesse sentido? Breiller lembra que alguns clubes, como Bahia e Internacional, já estavam se movendo no sentido de fazer seus programas de sócio serem mais acessíveis para a maioria de seus torcedores, e que de uma forma pragmática, após a pandemia, mais clubes percebam que vão precisar dessa parcela da população. 

“Nós entramos nesse processo de gentrificação que é bastante difícil de frear, mas também acho que, de uma forma pragmática, os clubes depois da pandemia vão precisar se virar para esse torcedor mais pobre porque estarão em sérias dificuldades”, diz.

Já Asbeg alerta que futuros projetos de voltar com os setores populares no estádio podem envolver projetos populistas e eleitoreiros de figuras de extrema direita como o governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel e os deputados Daniel Silveira e Rodrigo Amorim, famosos por quebrar a placa da ex-vereadora Marielle Franco. 

“Regularmente os políticos falam sobre a volta da geral, mas não porque estão preocupados com o povo, mas por uma razão totalmente populista quem é: quem vai conseguir botar isso no currículo?”, finalizou.

Assista o documentário “Geraldinos”, que está disponível gratuitamente no youtube. 

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