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Com Reid e Mahomes, Chiefs beiram consagrar revolução. Mas lado sombrio espreita

Por justiça esportiva, Andy Reid precisa terminar a carreira com um Super Bowl, enquanto Patrick Mahomes é um dos mais completos jovens jogadores que a NFL já viu. Os Chiefs trazem muito à mesa, e nem tudo é bom na decisão da NFL em 2020: há uma parte que tem de ser lembrada

Os Chiefs voltaram ao Super Bowl 50 anos depois (Foto: Twitter/Kansas City Chiefs)

O mero conceito de entrar para história é complicado e ao mesmo tempo expansivo e frugal, com diversas estradas a tomar e maneiras de conseguir encaixar sua fotografia no livro de memórias de um grupo ou atividade. Aqui, especificamente, essa atividade é o futebol americano e o grupo é os dos treinadores. O que é entrar na história? Aos 61 anos de idade, 21 temporadas como treinador principal e 221 vitórias, Andy Reid tem a importância devidamente destacada. Falta, no entanto, a prova final para a conquista que resta à carreira: o Super Bowl. Ao menos até este domingo.

Reid é uma das mais brilhantes mentes ofensivas dos últimos 20 anos. Quando começou na NFL, como assistente ofensivo de Mike Holmgren, no Green Bay Packers, mais de 25 anos atrás, como um sujeito egresso do sistema de ataque West Coast. A partir do momento em que se tornou head coach, em 1999, começou a evoluir de um planejamento de passes curtos e horizontais. Os anos de Filadélfia representaram evolução, inclusive com a tentativa de instalar um ataque em torno de Michael Vick, recém-saído da prisão e com uma carreira presumivelmente morta. Reid tentou montar um ataque spread, baseado no envolvimento do jogo aéreo num sistema baseado em jogo corrido. Com Vick, pouco antes da explosão de Colin Kaepernick e Robert Griffin III, não foi capaz de implantar o zone read que logo apareceria na íntegra, mas mesmo assim fez Vick subir de párea para candidato a MVP por boa parte da temporada 2010.

Mas os 13 anos com os Eagles mostraram como Reid era capaz de ajustar seus sistemas ao que percebia como tendências, tanto no futebol americano universitário quanto na NFL. E assim seguiu para Kansas City, em 2013, para treinar os Chiefs. O primeiro grande movimento do time sob o regime de Andy Reid foi contratar o quarterback Alex Smith, um elo entre as duas equipes que se enfrentam neste domingo: Smith fora descartado por conta da capacidade de Kaepernick para funcionar sob o zone read. Kaepernick era o talento superior e, mais jovem, ficou com o emprego.

Smith foi fundamental para fazer algo que os Chiefs não tinham há tempos: estabilidade total. Tinham em gerente-geral (GM) experiente em John Dorsey, um treinador renomado em Reid e, enfim, um quarterback com o qual seguir em frente como o rosto da franquia. Smith enfrentou mediocridade de uma franquia em espiral da morte com os 49ers e, por isso, conheceu sequências longas e mostrou qualidades que nem sempre puderam ser vistas. Reid explorou uma espécie de zone read com o veterano, usando uma capacidade atlética que foi miragem por boa parte da carreira. Conforme os anos passaram, e Kansas City passou a contar com armas ofensivas de velocidade e profundidade, passou a transformar o ataque num gigante horizontal de passos longos. Smith, historicamente abaixo da média para fazer passes acima de 15 jardas, foi o quarterback com maior rating da NFL com passes acima de 15 jardas em 2017. Foi, por boa parte da temporada, candidato a MVP.

Uma derrota dolorida no primeiro jogo dos playoffs, para um confuso Tennessee Titans de Marcus Mariota – um dos menos memoráveis times a vencer um jogo de playoffs da NFL na década -, encerrou com um ponto de exclamação um período que tinha sempre exposto sua mais latente ferida: o teto do seu principal jogador.

A estabilidade fundamental para a reconstrução da franquia sempre passou mais pelas mãos de Reid do que dos outros mencionados. Dorsey foi o típico caso de GM contratado depois do técnico, naturalmente com algum tipo de aval, e deixou o clube em 2017. Quem assumiu o principal cargo executivo foi Brett Veach, alguém que trabalhou com Reid nos Eagles por nove anos e foi para os Chiefs junto do treinador. Um pupilo de extrema competência que sempre entendeu as necessidades do treinador com quem tem relação próxima. Dorsey, entretanto, teve um momento de brilhantismo antes de deixar o clube naquele ano: movimentou o draft de forma precisa para selecionar Patrick Mahomes com a décima escolha da primeira rodada, o segundo QB.

Mahomes assistiu do banco o ano de Smith e a derrota dolorida como mandante para os Titans. A partir daí o time era dele e virou uma verdadeira máquina horizontal. É quando entra o segundo personagem desta história.

O braço de Mahomes permitiu que Reid transformasse o ataque dos Chiefs numa máquina de passes longos e jogadas simples com o poder de desmontar um time rival de alguma forma. Não é apenas o braço poderoso, capaz alcançar pelo menos metade do campo. É a habilidade atlética e a capacidade de realizar jogadas complexas pelo chão. Mas mais que os dois é a inteligência. Mahomes improvisa com escolhas maduras, tem uma movimentação dentro do pocket que se assemelha a Tom Brady e faz com que passe praticamente todo o tempo protegido, além da facilidade e velocidade para fazer segundas e terceiras leituras das defesas adversárias.

Aos 24 anos, Mahomes é um unicórnio. A caixa de ferramentas do quarterback dos Chiefs é assustadora, porque é diferente e mais completa a de todos os outros da NFL, mesmo aqueles que estarão no Hall da Fama em alguns anos. Em dois anos como titular de seu time, conquistou um prêmio inconteste de MVP, em 2018, e é possível argumentar que foi ainda melhor em 2019 quando esteve saudável – Mahomes ficou ausente por dois jogos e esteve baleado em mais alguns por conta de um deslocamento de patela. Mahomes foi interceptado somente cinco vezes, 1% dos dropbacks – momentos em que andou para trás para fazer um passe – em comparação com 2,1% no ano passado. A capacidade notável de se esconder no pocket fez com que fosse sacado apenas 17 vezes durante a temporada, o que representa 3,4% dos dropbacks em comparação com 4,3% em 2018. Há que destacar também que todo o ataque dos Chiefs viveu lesões durante o ano, fazendo com que velocidade e consistência entre recebedores e confiabilidade no jogo corrido só fossem se cruzar no fim da temporada.

Caso os Chiefs vençam neste domingo, Mahomes – aos 24 anos, bom reforçar -, será o mais jovem quarterback da história a ter conquistado um Super Bowl e um prêmio de MVP. O atual ocupante do posto? Brett Favre, aos 27 anos, em 1996. O elo entre os dois? Andy Reid, claro, que até ali trabalhara como treinador-assistente de ataque, treinador dos tight ends e assistente da linha ofensiva. Reid ainda seria treinador dos QBs dos Packers ao lado de Favre.

A sensação é de que Mahomes irá a muitos outros Super Bowls na carreira, mas é uma impressão perigosa: não há qualquer promessa na NFL. Certamente é uma conversa que Reid teve com Mahomes e todo o time. Afinal, quando foi ao primeiro Super Bowl como head coach, em 2005, Reid certamente não achou que levaria 15 anos para voltar ao grande jogo – os Chiefs não fazem parte do último jogo da temporada há 50 anos. No caminho, tornou-se o sétimo treinador com mais vitórias na história. Paul Brown, que tem exatamente uma vitória a mais que Reid como head coach, conquistou sete campeonatos.

O lado sombrio

Nem toda a reconstrução dos Chiefs foi feita de forma suave e com aclamação pública. É importante destacar, ao lado dos elogios com relação à montagem de um time perenemente capaz de vencer o Super Bowl, que a ligação recente da equipe com jogadores envolvidos em agressões domésticas é maior que a de qualquer outro time da liga.

Sob o regime atual, nenhum outro time apostou tanto em jogadores com um passado violento contra mulheres. Conforme destacou matéria do ‘USA Today’ realizada há alguns meses, os Chiefs assinaram, desde 2015, com três jogadores expulsos de equipes universitárias por violência doméstica. Um deles, Justin Cox, foi demitido ainda em 2015, enquanto novato, após ser preso novamente acusado de violência agravada, invasão e roubo – Cox foi jogar no Canadá, sem vaga na NFL, e foi novamente demitido após episódios violentos. Nenhuma das vítimas do ex-jogador tiveram o nome divulgados, mas foram reconhecidas como namoradas. O edge Frank Clark, um dos principais jogadores de defesa dos Chiefs, é outro com histórico. Em 2014, Clark foi dispensado da Universidade de Michigan após ser preso por, segundo diversas testemunhas relataram à polícia local, dar um soco na namorada Diamond Hurt. Clark chegou à NFL pelo Seattle Seahawks, é verdade, e foi contratado pelos Chiefs para atual temporada.

Os dois casos mais destacáveis, contudo, aconteceram nos últimos 15 meses. Em novembro de 2018, era de conhecimento comum que o running back titular da equipe, Kareem Hunt, havia se envolvido em uma briga e fora acusado de agressão por uma mulher em situação acontecida oito meses antes, em fevereiro. Os Chiefs se inclinavam a não tomar qualquer providência para o caso até que o vídeo do incidente, ocorrido num corredor de hotel em Cleveland, veio à tona pelas mãos do site ‘TMZ’. A imagem era brutal: Hunt, sujeito de quase 1,90m e 100kg, atleta profissional de alto rendimento, desferindo um soco no rosto da mulher, uma amiga de amigos do jogador e que não teve nome divulgado, depois empurrando-a ao chão e chutando a moça. O vídeo rendeu a demissão de Hunt, mas escancarou outro problema da NFL: os vídeos são a única coisa que rende consistentemente rende punições severas do clube e da liga, mas dificilmente há interesse real em encontrá-lo. Como o ‘TMZ’ buscou o vídeo após oito meses e uma companhia do tamanho da NFL foi incapaz de conseguir?

O caso mais recente e importante é o que envolve Tyreek Hill, o principal wide receiver e um dos dínamos do superataque. Hill foi outro dos que terminou a carreira universitária nas páginas policiais: declarou-se culpado por agressão à então grávida namorada, Crystal Espinal, que deu entrada no hospital com cortes e lesões no rosto e no pescoço. A acusação original é perturbadora. Condenado a três anos de prisão, fez um acordo para tomar cursos de controle de raiva e antiviolência doméstica, além de trabalho fixo. Não tardou até que Kansas City escolhesse o WR com uma escolha de quinta rodada. Aliás, esse é outro problema da NFL, que castiga jogadores que são escolhas moralmente difíceis, mas com talento de sobra, jogando-os algumas rodadas abaixo do que deveriam ser selecionados no draft. Do ponto de vista moral, o jogador em questão terá um salário muito menor do que um escolhido na primeira rodada, mas essa não é a questão. A questão é que os homens e seus atos são transformados em representatividade do risco. O jogador bomba-relógio de caráter duvidoso fará parte do time como todos os outros, mas se der errado e voltar a machucar alguém fará um estrago menor para os quadros da equipe. Compreensível, mas discutível ainda assim.

Com o passar dos anos, Hill se transformou numa estrela na NFL e, de fato, seguiu com os programas de terapia e chegou a ser elogiado pelo treinador Reid como um exemplo de trabalhador. Até que, no primeiro semestre deste ano, a Crystal Espinal voltou a buscar a justiça. A agora noiva do jogador acusou Hill de violência física contra o filho do casal, que sofreu uma fratura no braço. Numa conversa via telefone, vazada durante o processo, Espinal afirma a Hill que o filho afirmara repetidamente que “foi o papai” com relação à lesão. E Hill, em tom de ameaça, respondia que Crystal “deveria ficar aterrorizada com ele também”. Hill ficou fora dos treinos pontuais realizados pelos times durante as férias, mas foi liberado sem indiciamento após a investigação ser concluída. A NFL também deixou o jogador seguir a vida sem problemas.

“Em algum momento, as coisas ficarão ruins para os Chiefs se eles continuarem ignorando violência doméstica e continuarem a selecionar jogadores com esses históricos”, afirmou Kim Gandy, presidente da Rede Nacional para Acabar com a Violência Doméstica ao ‘USA Today’. Pelo lado dos Chiefs, o presidente Mark Donovan afirma que o time “faz tanto quanto ou mais que qualquer outro time na liga” para lidar com jogadores com históricos violentos.

A situação de Kansas City com relação a violência doméstica e, sobretudo, mas não somente, contra mulheres é bastante difícil. Por melhor que trabalhasse os jogadores com histórico violento, o clube faz muito pouco trabalho contra a violência doméstica. O fato de empregar tantos jogadores com tais características e ladear o coração do assunto tende a trabalhar para amedrontar vítimas de violência doméstica a que venham a público realizar denúncias. A pergunta sobre como lidar com casos de violência doméstica é dos Chiefs, mas também de toda a NFL, que ainda tateia no escuro em buscar de respostas. E de todo o esporte de alto rendimento, especialmente nos esportes mais ricos, que ainda abrem concessões das mais estapafúrdias em prol de um objetivo que parece permitir quaisquer aberrações: ganhar campeonatos. Os jogadores pegos em vídeo ou dispensáveis à equipe servem de sacrifícios óbvios para aqueles indispensáveis.

Na segunda-feira passada, dia em que os jogadores de ambas as equipes classificadas para o Super Bowl são obrigados e ficar à disposição da imprensa, Hill falou à repórter Lindsay Jones, de ‘The Athletic’, que “não vai desperdiçar a oportunidade dada pelos Chiefs, porque não estou jogando apenas por mim. Estou jogando por meus filhos, por minha cidade e por toda a organização. Tudo que eu faço é por eles, tudo vai ser pelos meus filhos.”Neste domingo, o Kansas City Chiefs será um time polarizador. O brilhantismo e o longo tempo esperado para Andy Reid entrar no salão dos campeões, a criatividade e genialidade do unicórnio Mahomes e todas as suas armas, como o também futuro Hall da Fama Travis Kelce e um dos ataques mais dinâmicos de todos os tempos. Mas há também o lado sombrio que funciona como o microcosmo mais bem-acabado da dificuldade de homens poderosos em lidar com a violência doméstica na NFL e talvez em todo o esporte mundial. O legado dos Chiefs de 2019 tem de tudo um pouco.

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