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Bebi minha bicicleta, a história de uma eliminação

A tristeza de uma derrota só é acalmada, ou piorada, com muita cachaça. O resto, é história.

Saindo de casa, coração na mão, bandeira no colo, camisa cheirosa, fé em dia. Tudo certo. Não tinha porque dar errado e o caminho de volta tinha o bar preferido. A ideia é passar por lá para tomar aquela e dar um abração no Seu Joaquim, velhinho sangue bom e alvinegro pra caramba. O roteiro tava lindão.

Clima muito forte na chegada de casa. Todo mundo no gás, no pique, cantando alto. Metrô já estava abarrotado, mano, mas a rampa do estádio parecia dispersão de carnaval, era gente demais. Qual era a chance do Timão perder pro time lá, ruim pra caramba, nome esquisito, deve ser do Paraguai. Coisa de segunda.

Dois a zero já de cara. Era quase impossível não ficar bêbado no intervalo. Tava ganho. Como que pode, porra, voltar pro segundo tempo daquele jeito morto. Num ia dar. Tava na cara, que merda, todo mundo sabia. Gol dos caras. Cássio frangou, o Pedrinho foi pro chuveiro, o Gustavo brigava com a bola igual as brigas com a morena depois do bar de terça-feira. Uma desgraça sem fim. Faltava trilha sonora triste, só.

Foto: Marcos Ribolli

Deu cagada mesmo. Sei lá o que aconteceu. Dava uma vontade de chorar que cês nem sabem. O caminho até o boteco era só silêncio. Uns abraços nuns desconhecidos. O Uber tava tocando Marília. Os quatro choraram, não tinha jeito. O motorista tava com a cara inchada que só. “Todo mundo vai sofrer”, cantava a caixa de som velha que chiava muito. Os acordes batiam na alma.

O que aconteceu até as 3 da manhã, ninguém sabe. Acordando do coma, com um cachorro lindo lambendo a testa suada, os ouvidos choravam. Tocavam todas as mais sofridas. Entre muitas frases explicativas, uma marcou o momento: “até bala perdida tem mais rumo que eu”. Aquilo fez um sentido destruidor. Onde estava o caminho de casa? Como faz?

Com o sol no céu e um hiato na memória, um carro qualquer com um motorista qualquer deixa o corpo, já desalmado, na porta de casa. Três dias para encaixar a chave na fechadura, a geladeira só com ovo e gelo. A televisão ardia os tímpanos com o Bom Dia, Brasil relembrando o gol daquele desgraçado. Não tinha mais como escapar. Era infernal.

Decidi, eu, um torcedor do Corinthians que se ferrou muito a noite inteira, escrever essa carta, só agora. Não tem mais nada em casa.

Eu bebi minha bicicleta, bebi minha tevê. Só não bebi o meu celular porque precisava escrever pra vocês.

Nota: essa carta contém erros gramaticais causados pela cachaça.

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