Siga-nos

Entretenimento

Ricardo Coimbra: “não existe piada mais engraçada do que cartunista que se acha importante”

Chargista recusa a fama de bom cronista da realidade brasileira e se considera um “bobo da corte”

Opressores das bochechas rosadas, a menina da tatuagem de mandala, o idiota motivado para abrir uma startup e o barbudinho de tiara. Esses são alguns personagens do mundo real que, caricaturizados ou não, todo mundo conhece. E todos eles estão presentes nas tirinhas de Ricardo Coimbra. O mineiro é um dos artistas que melhor expressa o Brasil do século XXI e se tornou um dos principais chargistas do país.

Mas não diga isso pra ele. 

“Gosto da ideia de não ser importante”

A fama de bom leitor da realidade política do Brasil de hoje pode ser facilmente percebida com uma rápida olhada pelas suas tirinhas nas redes sociais, por mais que ele não queira.

O jovem de bochechas rosadas vestindo roupa militar de loja de pesca comendo salgadinhos que destila o seu ódio na internet e se coloca à disposição de seu país armado com sua bombinha de asma é algo que provavelmente representa mais o Brasil de hoje do que a maioria dos textões por aí. Coimbra, porém, se considera tão confuso quanto a maioria dos brasileiros nesse momento.

“O que eu faço é apenas ficar propondo hipérboles, hipóteses cômicas, situações absurdas. Eu não acho que eu seja um leitor perspicaz da política nacional ou algo que o valha. A realidade é que, muitas vezes, é absurda a ponto de parecer com as bobagens que eu invento. Eu não sei se isso que eu faço ajuda a entender alguma coisa, mas me parece meio desesperador um mundo em que a sátira pode passar como uma explicação objetiva da realidade”, acredita. 

Entre tanta gente medíocre e desimportante que se leva a sério no Brasil de Bolsonaro, Coimbra faz questão de ir no caminho oposto. Questionado sobre o trabalho do chargista nesse momento, ele se recusa a se dar qualquer importância.  

“Eu não gosto muito de ficar pensando em importância do chargista. Eu gosto da ideia de não ser importante, como um bobo da corte mesmo, um paspalho que, por não ter poder ou relevância nenhuma, pode falar o que quiser. Eu acho que não existe piada mais engraçada do que o cartunista que se acha importante”, disse. 

Bolsonarismo como expressão política do ressentimento

Muitos cientistas políticos são da opinião de que governos conservadores e populistas como o de Jair Bolsonaro e Donald Trump são, na verdade, o governo dos homens brancos infelizes e raivosos. Alguém que não conseguiu chegar onde gostaria e agora culpa quem passa pela frente: os comunistas, as feministas, os gays ou os negros. 

O adolescente desprezado na escola por não estar nos padrões de beleza e que sempre foi trocado pelos “descolados” agora se vinga tentando mostrar testosterona pela tela do computador. 



Coimbra concorda que esse ressentimento ganhou espaço no governo brasileiro com figuras como Abraham Weintraub (Educação) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e que é reflexo da uma violência que sempre existiu na sociedade brasileira.  

“O governo atual é claramente uma expressão política do ressentimento e digo isso porque de ressentimento eu entendo. As figuras que estão ocupando cargos hoje representam isso muito bem. São párias intelectuais que encontraram seu momento. Nessas alturas do campeonato, acho que não é mais novidade pra ninguém que a campanha do Bolsonaro foi muito hábil em dar voz a muito dessa raiva de quem foi alijado do debate público por incapacidade intelectual e psicológica. Eu tendo até a concordar com críticos que defendem que a esquerda contribuiu para isso encastelando-se numa certa arrogância intelectual e acadêmica em seus anos no poder ao invés de disputar os corações e mentes dessas pessoas que se sentiam pouco representadas. Mas acho que isso foi apenas uma de muitas dimensões. Sempre existiu na sociedade brasileira uma violência, uma truculência e um fascismo meio difuso que agora ganhou uma expressão ideológica”, analisou.

Ricardo também disse que chegou a sofrer ameaças na época da eleição. “Chegaram a me mandar mensagens com foto da minha casa, com meu endereço, dizendo que vinham me dar um tiro na cara. Apesar de perturbador, me pareceu muito mais uma tentativa de intimidar, um lance meio de bullying e eu simplesmente ignorei. Porque é um baita recibo de medo e fraqueza perder tempo ameaçando cartunista, que é geralmente um coitado”.   

Apesar de também não poupar a menina com tatuagem de mandala e o barbudinho de tiara, símbolos de uma militância equivocada também à esquerda, o chargista considera que os dois fenômenos, apesar de alguns pontos semelhantes, são de naturezas totalmente opostas.

“Eu nem acho que essa seja a militância (a esquerda) real, muitas vezes nem é ninguém ligado a nenhum movimento ou partido, é uma parcela histriônica de gente na internet carente de atenção, muitas vezes tentando compensar falta de talento com militância e aí sim, se assemelhando um pouco com o ressentimento bolsonarista. Uma parte da esquerda de fato desperdiçou energia nesses expedientes inócuos enquanto a direita estava fazendo trabalho de base, principalmente em igreja. Enquanto a esquerda estava brigando internamente quanto ao uso correto do pronome de gênero para pessoas trans, o Bolsonaro tava falando em revólver e segurança pública e pavimentando seu caminho para o Planalto. Mas eu não acho que essa seja a explicação principal para a existência desse governo. Quando se trata desse lado fascistóide da sociedade brasileira, acho que o buraco é muito mais embaixo e o bolsonarismo é só o começo”, concluiu

Assine nossa newsletter

Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas

Publicidade
Trending Now
Publicidade

Relacionados

Bolsonaro, o covid-19 e a caixa de empatia

Política

Policial e antifa, Wagner Vidal dirige grupo seguido por mais de 117 mil pessoas no Instagram

Política

Como Brasil vem de brasa, bandeira deveria ser vermelha

Política

Fora do ar na TV, o que Luís Ernesto Lacombe pode fazer para se recolocar no mercado?

TV

Publicidade
Assine nossa newsletter

Copyright © 2020 | Todos os direitos reservados.

Connect
Assine nossa newsletter