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Sem medo de experimentar, Joel Schumacher jamais sofreu com indiferença

Ao longo de 30 anos na cadeira de diretor de cinema, Joel Schumacher nunca temeu dar visão próprias às obras. Tanto sucesso quanto fracasso eram dele e de ninguém mais

Joel Schumacher;
Joel Schumacher (Foto: Reprodução/Twitter)

Joel Schumacher morreu hoje, aos 80 anos de idade, vítima de câncer. Estava há longos anos distante da cadeira de diretor – esteve em dois episódios de ‘House of Cards’, em 2013, e teve ‘Reféns’, de 2011, como último filme. Schumacher não teve grandes prêmios, mas montou uma carreira impossível de ser ignorada.

Schumacher jamais teve medo de transitar entre diferentes gêneros, mas sempre com um toque marcante no que dizia respeito ao estilo. Estudante de moda, ingressou no cinema como diretor de design e sempre carregou o traço quando se tornou diretor. E assim veio o sucesso inicial, em ‘O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas’, um conto de coming of age que impressionou, se não a crítica, ao menos o público apegado às histórias que denotavam algum realismo sentimental e um quê de encruzilhada moral em alguns de seus protagonistas jovens naqueles anos 1980.

Nenhum dos filmes seria mais estiloso que o seguinte, ‘Os Garotos Perdidos’, quando explora uma disputa quase que antropológica sobre o que é família, uma dicotomia entre uma formação familiar comum e outra, bem, uma comunidade de vampiros. Nos Estados Unidos do auge do governo Reagan, o filme faz um importante trabalho de dissecar estruturas familiares.

Anos mais tarde, já nos anos 1990, Schumacher chegou concorrer à Palme d’Or por ‘Um Dia de Fúria’. Há quem acredite que o filme é altamente irresponsável, porque o protagonista de um brilhante Michael Douglas tem nas minorias o objeto de seu mais despudorado ódio. É até possível entender, mas também discordar. D-Fens é um sujeito casualmente ignorante que atinge um estado de decepção e tristeza tão insuportável que se transforma em ódio. E, sendo ignorante, volta o ódio aos alvos mais fáceis. O personagem é complexo e em clara confusão mental. Ao mesmo tempo em que é detestável também causa pena. É uma construção habilidosa que falha ao não condenar com mais vigor, mas não trata o protagonista com piedade. Na realidade, funciona quase com um estudo de caso do homem branco que se vê como vítima de uma sociedade diversa e cultiva o ódio por não ter recebido toda a bonança que a branquitude do sonho americano prometeu.

É verdade que a metade dos anos 1990 trariam Schumacher ao Batman. Especialmente, em 1995, a ‘Batman Eternamente’, um filme subestimado. E esqueça a tentativa de construir um Batman atormentado pelas dores da perda da família e do sofrimento de um homem com todo o dinheiro do mundo. Schumacher preferiu uma abordagem colorida, com personagens no limite do ridículo e um Batman que parece sempre um tom acima dos demais e acaba servindo como escada a seus coadjuvantes. E funciona, funciona muito bem. Jim Carrey e, por algum motivo, existe algo quase magnético em acompanhar um Val Kilmer sempre em outra sintonia. Poderia ser desesperador, mas não é. Ainda faria ‘Batman & Robin’ depois que, um desastre sob quase todos os aspectos, ainda é mais divertido que a maioria dos filmes de heróis que seriam feitos nas duas décadas seguintes.

Em dois dramas jurídicos dos anos 1990, ‘O Cliente’ e ‘Tempo de Matar’, garantiria uma indicação ao Oscar para Susan Sarandon e faria explodir a carreira de Matthew McConaughey, sempre meio a grandes elencos. Schumacher também faria de Colin Farrell um sucesso ao colocar o thriller ‘Por um Fio’ totalmente na mão dele em 2002. O filme é diferente, um suspense passado quase que somente dentro de uma cabine telefônica e que consegue causar muita tensão como pouco movimento, sempre um bom sinal – é o que diz alguém que tem ‘Janela Indiscreta’ como filme preferido.

O sombrio mistério ‘8mm’ encerrou os anos 1990. Schumacher, que passara na comédia romântica com ‘Entre Primos’ e voltaria ao horror sobrenatural com ‘Linha Mortal’, ainda faria o musical ‘O Fantasma da Ópera’, baseado na versão teatral dos anos 1980. Fez de tudo um pouco e teve momentos que beiraram o brilhantismo, mas também fracassos retumbantes e leituras equivocadas como em ‘Tudo Por Amor’ ou ‘Veronica Guerin’, esse último não consegue ser salvo nem pelos esforços mais hercúleos de Cate Blanchett. Ou do absurdo ‘Em Má Companhia’, que consegue apenas ser um ‘A Hora do Rush’ sem o carisma.

O importante é que jamais faltou a vontade de beber em diferentes fontes, algo que Schumacher fez, ainda bem, durante 30 anos de direção.

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