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Cinema

Problematizar ou simplificar: como os indicados a Melhor Filme no Oscar abordam a construção da masculinidade?

Ao menos sete dos nove concorrentes abordam como a masculinidade é construída na sociedade e os problemas que ela pode causar

Acontece no próximo domingo (9) a entrega do Oscar. A premiação ficou envolta em polêmicas nos últimos anos, expondo e debatendo o machismo e o racismo na academia. 


Depois do ano de 2015, quando as perguntas feita às mulheres no tapete vermelho, muitas vezes mais voltadas às roupas que vestiam do que sobre seu trabalho entraram no centro das discussões; e de 2016, onde diversos diretores, atores e atrizes boicotaram a entrega e questionaram a pouca presença negra na premiação, ao que parece, a academia vem abrindo espaço para filmes com narrativas mais questionadoras.

Esse ano a construção da masculinidade está presente como elemento principal (ou pelo menos como um fio condutor) em, pelo menos, sete dos nove indicados ao prêmio de melhor filme.

O jornalista e pesquisador do Inanna- Núcleo Transdiciplinar de Investigações de Sexualidades, Gênero e Diferenças da PUC-SP Marcelo Hailer Sanchez explica que a construção da masculinidade passa por criar um padrão do homem hétero na sociedade.

“Essa construção passa por diversos pontos desde a educação de casa, da convivência com amigos até a escola, que nunca fala, ou pisa muito em ovos nessa questão. Vamos pensar que dos 5 aos 21 anos a gente passa dentro de uma sala de aula. Quando a escola não fala e não pensa sobre gênero impera o senso comum: o homem hétero, reprodutor, que tem que casar e ter filhos, essa é a base que prevalece na escola e nos lares”, diz. 

A solidão do homem em era uma vez em Holywood e O Irlandês

Em “Era uma vez em Holywood” Leonardo Di Caprio faz o ator Rick Dalton, o arquétipo perfeito do macho padrão. Bonito e grosseiro, faz papeis em filmes de faroeste em que luta contra os bandidos. 

Di Caprio e Brad Pitt: os homens que precisam reprimir suas emoções

Acontece que o mecenas da indústria Marvin Schwarz (Al Pacino) dá a Dalton a triste notícia: ele não é mais tão bonito e jovem e sua carreira está fadada à decadência. Hailer explica como nessa cena o padrão de masculinidade aparece, já que nem chorar em público ele pode por ser o grande ator que deve entregar para a sociedade o que ela quer dele: virilidade.  

 “A crítica de Tarantino é sobre esse macho de Holywood que ainda existe hoje em dia. Ele não tem amigos e não pode falar que ele está sofrendo pra ninguém a não ser pro dublê dele. Isso mostra que essa construção é ruim para toda a sociedade, inclusive para o próprio homem heterossexual”, diz.

A mesma coisa acontece com Frank Sheeran (Robert De Niro) em O Irlandês. Braço direito de um grande mafioso e acostumado a exercer poder, ele se vê, já no fim da vida e sozinho, contando a sua história. 

Robert de Niro: o homem que, na solidão da velhice, percebe que seu tempo passou

O hipster em “História de um casamento” também reflete esses padrões

Acredito que todo mundo conheça um “esquerdomacho”. Homem hétero supostamente desconstruído mas que, se olharmos bem de perto, reproduz os mesmos padrões errados que tanto critica. 

Em “História de um casamento” Adam Driver é Charlie, o clássico esquerdomacho. Seu casamento com Nicole (Scarlett Johansson) está chegando ao fim e, aparentemente, ele não sabe o porquê.

Dependente da esposa até para amarrar os sapatos, o relacionamento é um clássico do homem que substituiu a mãe pela esposa. Um outro ponto é que Charlie tomou todas as atitudes da vida, como fazer uma carreira em Nova York, sem consultar a esposa em nenhum momento e quando ela resolve se mudar para Los Angeles, onde moram sua mãe e irmã, com o filho do casal, ele se revolta não aceitando que Nicole tem interesses próprios.

“Aquilo ali é uma relação abusiva, mas quando eles percebem já é tarde demais, ele já tinha anulado a companheira”, explicou Hailer. 

Adam Driver: o esquerdomacho

Coringa: a “masculinidade fracassada”

Bastante aclamado pela crítica e pelo público, Coringa conta a história de um dos vilões mais complexos da cultura pop. Invocando a figura do “palhaço triste”, o filme faz um raio x de como a sociedade constrói um vilão.

Humilhado em subempregos, Arthur Fleck (Joaquim Phoenix) é um humorista frustrado que devolve ao mundo violência e caos. Nesse caso, a construção de sua masculinidade passa por uma não adequação ao mundo “produtivo” do capitalismo e ao papel que sempre foi reservado a ele como homem. 

“O Todd Phillips faz uma abordagem muito legal do personagem. Ele pergunta: o que deixa um homem doente? E o filme mostra que são várias coisas. A mãe projetou a vida desse filho, mas ele cresce e não conquista nada daquilo e vai se sentindo mal por conta disso. Entra na questão da masculinidade fracassada. Esse mundo da masculinidade tradicional não é para todos os homens e isso não deveria ser problema. Ele não consegue carreira, namorada e nem pagar as contas, e vai trabalhar com um palhaço que segura placas e nem ali ele dá certo. E o diretor soube encaixar todo o arcabouço do personagem dentro da coisa da masculinidade”, apontou Hailer. 

Coringa e o fracasso como homem

Parasita: masculinidade e classe social

Um dos mais filmes elogiados da lista, o sul-coreano Parasita é o único estrangeiro. Com direção de Bong Joon-Ho é um dos que mais pesam a tinta no quesito crítica social. A trama gira em torno de duas famílias e suas diferenças.

Os pais das famílias rica e pobre é um grande ponto a se destacar. Enquanto o da família trabalhador está sempre junto dos filhos e da esposa, fazendo todas as refeições juntas, sendo solidários uns aos outros e pensando em melhorar de vida; o da família rica mantém uma relação distante e fria, sempre mais preocupado com emprego e status e dificilmente mostra um gesto de carinho.  

Parasita: a diferença entre os pais rico e pobre

Jojo Rabbit e a construção do inimigo infância

A história de Johanes (Roman Griffin Davis), uma criança de 10 anos que se inscreve para um treinamento da juventude nazista e tem Hitler (Taika Waititi) como um amigo imaginário pode ser chocante. E é. Sem entrar no ideal do “macho ideal”, vê no ódio ao diferente seu atalho para se inserir na sociedade.

O diferencial do filme é que a interação de Jojo é quase sempre com mulheres: sua mãe Rosie (Scarlet Johansson) e Elsa (Thomasin McKenzie) uma judia que mora escondida no seu sótão. E são elas que ajudam a desconstruir o preconceito nele.  

O tempo todo Jojo interage com um Hitler imaginário, uma figura infantil e mimada que o ensina a odiar os judeus. Essa construção de preconceitos e a sua desconstrução mostram bem como os exemplos errados podem fazer muito mal a uma criança.      

A construção binária do herói em 1917

Favorito para a conquista, 1917 vai na contramão dessa construção de uma masculinidade problemática. É simplesmente um filme de guerra onde Blake (Denis-Charles Chapmen) e Schofield (George MacKay) são os heróis britânicos lutando contra os alemães malvados.

Hailer explica que, mesmo com filmes mais sensíveis e problematizadores, ainda há hoje uma disputa de narrativas entre filmes que abordam os problemas da construção de uma masculinidade binária de obras que ainda reforçam o estereótipo do homem “ideal”.

“Antigamente era muito comum só vermos representado o machão estilo Rambo e Rocky Balboa. Hoje em dia isso ainda existe, como na franquia Velozes e Furiosos, mas há obras que retratam um outro lado como a série Euphoria, da HBO; e os filmes Hoje eu quero voltar sozinho e Moonlight. De repente um jovem que está sofrendo vê um filme desses e se liberta. É com lembrar que ter essas obras disponíveis pode salvar vidas, é disso que estamos falando”, encerra.

1917: o homem na guerra, lutando contra o mal


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