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Cinema

‘Democracia em Vertigem’ deu azar: Melhor Documentário é ‘A’ categoria do ano

‘Democracia em Vertigem’ não vai ganhar o Oscar, muito provavelmente. Mas não por sua qualidade – ótima -, e sim porque a concorrência colocou o filme de Petra Costa na categoria mais forte do ano

‘Democracia em Vertigem’ é o representante brasileiro no Oscar 2020, que ocorre no próximo domingo (9). Isso todos sabem – e, em um país tão dividido, as torcidas a favor e contra, por puras questões políticas, já estão formadas. Mas até aí… Tudo bem. O filme de Petra Costa deu azar – não por essa divisão, e sim pela categoria.

Melhor Documentário talvez seja a grande disputa do Oscar 2020. Pouco se fala – porque documentários não são exatamente o foco da premiação -, mas a categoria teve filme grande esnobado, tem concorrente a melhor filme estrangeiro, e simbolismos fortes, como política americana e guerras.

Para ‘Democracia em Vertigem’, tudo isso torna o filme ‘O’ azarão do ano.

Para começar, aquele que na visão dos analistas era o favorito acabou por nem entrar entre os cinco indicados: Apollo 11, documentário sobre, claro, a primeira nave que levou o homem à lua. O filme não tem narração, apenas imagens da época, boa parte jamais divulgadas antes. Todo o roteiro para ser uma obra prima e vencedor óbvio… Até que os votantes preliminares o ignoraram (mesmo sendo aquele que melhor arrecadou nos cinemas).

Vamos para os adversários de metade do Brasil – ou aqueles que têm a torcida de quem quer ver apenas Petra perder (o que é irônico pelos temas, mas aí vai da inteligência de cada um).

O favorito passou a ser ‘American Factory’ – puramente por tratar, veja só, de política do país sede do Oscar: os Estados Unidos, claro. O documentário da Netflix consegue uma abertura inacreditável em uma fábrica que havia falido, mas que um magnata chinês compra e salva boa parte de uma pequena cidade de Ohio do desemprego.

O problema é que ele não só traz trabalhadores chineses junto, como a cultura do país asiático passa a ser a dominante. E, meus amigos, Ocidente e Oriente são completamente opostos. A partir daí, os americanos percebem que foram salvos do desemprego, sim, mas que terão que passar por situações as quais não estão acostumados. Para a situação política atual dos EUA, o filme é perfeito para Oscar. É o favorito.

Para a situação do mundo, porém, o recado que o Oscar pode passar aos espectadores vêm dos outros três candidatos. Comecemos pela dupla Síria: ‘The Cave’ e For Sama – ambos mantêm seus nomes originais no Brasil, mas a tradução simples é ‘A Caverna’ e ‘Por Sama’.

Ambos são documentários sobre a resistência de mulheres na guerra na Síria: o primeiro trata de uma médica que chefia um hospital subterrâneo na cidade de Ghouta; o segundo foi filmado pela própria personagem principal do filme, que é jornalista e fica grávida durante os ataques à Aleppo. Seu marido é médico e também comanda um hospital improvisado.

A dupla traz a realidade crua do que é estar em meio à uma guerra e não querer deixá-la, para ajudar seus compatriotas, amigos e, no caso de ‘For Sama’, a própria filha – sim, Sama, que nasce durante a filmagem do documentário. ‘For Sama’ vem de vitória no Bafta, o Oscar do Reino Unido, aliás – mas o fato de Waad Al-Kateab, a jornalista que produziu o filme, hoje morar lá pode ter colaborado.

Por fim, o favorito do autor deste texto: ‘Honeyland’. O filme da Macedônia do Norte é lento, parece que não vai a lugar algum… E, quando você percebe, quer viajar até a Macedônia para salvar Hatidže Muratova , uma apicultora que vive com a mãe, bastante idosa, numa região isolada do país (descoberta por acaso quando a equipe de produção chegou ao local, para onde só havia ido por ganhar um concurso do governo para gravar um filme mostrando as belezas da região).

Solitária, ela só convive com outros humanos quando viaja até a capital de seu país para vender o mel que produz – notoriamente melhor do que todo o resto que os mercados vendem, por seu trabalho espetacular nas montanhas. Até que uma família se muda para uma casa do lado – e todo seu trabalho… Bem, o final é comovente, de chorar, e realista. Mostra como a produção puramente por capital prejudica o meio ambiente, e também os reflexos das mudanças climáticas. Repito: o final é, talvez, o mais tocante de todo o Oscar.

‘Honeyland’, inclusive, conseguiu algo inédito: com uma mudança de regras, pôde ser indicado, também, a Melhor Filme Estrangeiro. Deve perder para ‘Parasita’ – mas a pura indicação mostra sua força.

‘Democracia em Vertigem’ é ótimo para o brasileiro, que sabe de sua realidade, e também para mostrar aos americanos o caminho que sua política local pode estar tomando. Mas em termos mundiais fica para trás – e, por isso, deve perder. Muita comemoração de um certo lado político ocorrerá – mas, quando estes olharem o tema de quem ganhou, se pararem para pensar sentirão que foram derrotados, também.

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