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Em Brad Pitt, Academia reconhece o principal ‘mover’ de Hollywood

Brad Pitt irá finalmente receber uma estatueta do Oscar por atuação, no próximo domingo, por ‘Era Uma Vez… em Hollywood’. É o reconhecimento merecido por uma carreira de certa forma subestimada daquele que é o ator que usa como ninguém a forma com que se move em cena

O Cliff Booth de Brad Pitt (Foto: Sony)

Era somente o começo dos anos 1960 quando Albert Broccoli e Harry Saltzman formaram a EON Productions e compraram os direitos para adaptar a franquia 007 para os cinemas. O autor dos livros, Ian Fleming, foi incluindo no projeto e as partes começaram a tratar dos aspectos mais gerais e detalhados das produções até que chegaram a uma pergunta fundamental, absolutamente vital para que todo aquele investimento tivesse aceitação do público e se tornasse um sucesso: quem iria dar rosto nas telonas a James Bond? Tratava-se, afinal, de um personagem de descrição específica para as páginas escritas e atributos quase que inalcançáveis para pessoas palpáveis.

As deliberações foram conduzidas. Criador do super-herói da cultura machão, Fleming queria Roger Moore como Bond, enquanto Cary Grant, David Niven, Rex Harrison e Trevor Howard estavam na lista de finalistas para assumir o papel, bem como Sean Connery. Durante o processo, Broccoli convidou Connery para conversar, quase como uma entrevista, em sua casa.

Connery, um escocês sem experiência no cinema, aceitou o convite, foi até o lar dos Broccoli e impressionou. Não necessariamente o executivo da EON, mas a esposa dele, Dana Broccoli. “Ele se movimenta como uma pantera”, disse ao marido.

Broccoli foi convencido. Ajudou, é claro, que o orçamento para o filme era pequeno e que estrelas como Niven e Grant – então já aposentado -, custariam caro demais. Broccoli pediu que Connery passasse por um teste, porque Fleming tinha o poder de vetar atores dos quais não gostasse, mas o escocês negou que não faria teste algum. Era um ator com experiência no teatro e, caso quisessem contratá-lo, aquilo teria de bastar.

Os movimentos e trejeitos felinos de Connery não eram nada do que estava descrito nos livros, mas foi com isso que Broccoli convenceu Fleming. Estava escolhido o primeiro James Bond, que terminou por ser a régua com o qual todos os outros seriam medidos. ‘Dr. No’ estreou em 1962, consagrou o personagem e abriu a grande carreira de Connery.

O curto causo aqui descrito serve para destacar um aspecto do trabalho dos atores que fãs e críticos por todas as partes contam com uma tendência para deixar de lado: a forma de se movimentar. Muitas vezes atrai menos atenção que olhares, feições e capacidade de derramas lágrimas e voz estridente, mas não é, de forma alguma, menos importante para a construção e validação de personagens.

A ideia para esse artigo veio de um outro, escrito por Manohla Dargis e publicado na última semana em ‘The New York Times’. O artigo é ótimo e intitulado ‘Brad Pitt and the beauty trap’ e trata de como a percepção de beleza se colocou no caminho do ator com o passar dos anos. Aqui, entretanto, o que mais interessa é um trecho específico do texto.

“Pitt tem uma tranquilidade física que parece inseparável da aparência, aquela leveza que parece, ao menos em parte, vinda do fato de acordar todos os dias e viver a vida sendo uma pessoa linda. Dizer isso não é afirmar que gente bonita passa pela vida sem os problemas normais, as neuroses e esquisitices que infestam a nós, meros mortais. Mas Pitt sempre se moveu com a certeza absoluta que vemos em pessoas lindas (e dançarinos), a casualidade de movimentos que expressam mais que apenas confiança, mas uma sublime falta de autoconsciência ou dúvida sobre ocupar espaços, algo que nem todo mundo compartilha. Isso não é arrogância, é fluxo.

A forma como atores, trotam, esquivam e simplesmente ficam parados significa [muito], ainda que não tanto quanto antes dos cineastas começarem a se concentrar mais em cabeças falantes que, em escala, ficam melhores nas telas pequenas.”

É fundamental entender que as telas de TV tomaram uma proporção mais importante que há algumas décadas, e takes de corpo inteiro tendem a deixar os personagens pequenos e suas reações mais difíceis de perceber na televisão ou monitores de computador, que hoje acarinham os filmes feitos para o cinema ao longo dos anos com muito mais vigor. É natural, então, que a forma como atrizes e atores se movem sejam tidos como aspectos secundários de atuações hoje em dia em prol de traços mais concentrados no rosto.

Os maneirismos felinos e o despojo caçador de Connery criaram o padrão a partir do qual Bond e homens da lei de todos os tipos foram moldados a partir de então, tanto para grandes produções quanto para qualquer série procedural de TV.

Em ‘Era Uma Vez… em Hollywood’, Quentin Tarantino faz um tributo não apenas à Los Angeles de sua infância, mas também ao cinema dos anos 1960 e até a momentos das carreiras dos próprios atores. Colocar Pitt sem camisa, de calça jeans abaixo da linha da cintura e cabelos livres em cena não é um mero fan-service, mas uma recordação do primeiro grande trabalho do ator, em ‘Thelma & Louise’, quase 30 anos atrás.

Pitt em ‘Era Uma Vez…’ e em ‘Thelma & Louise’, 28 anos antes (Foto: Buzzfeed – Sony/MGM)

A forma como Brad Pitt se move pelo filme é precisamente calculada. Cada movimento é preciso, irretocável. A caminhada descompassada na tentativa de deixar o Rancho Spahn dá lugar à tranquilidade intimidadora que começa ao notar que o carro de Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) teve um pneu furado e que ganha força ao notar que ninguém no público oferece resistência, mas recebe ares de pressa ao notar novas movimentações. Toda a sequência do rancho é memoravelmente tensa e, embora seja um grande trabalho de Tarantino, jamais teria sucesso sem que Pitt fosse preciso. O mesmo vale para a sequência de ação do fim, quando Cliff Booth aterroriza os homicidas em potencial com a confiança com que encara as ameaças.

Até as mais simples movimentações, nas longas cenas em que está dirigindo, são fundamentais para construir a personalidade de um personagem totalmente confortável com a cidade e o mundo por onde transita, mas não vive, cada vez mais resignado que seus dias de dublê acabaram. Mesmo assim, de alguma forma, o dublê frustrado, pobre e com passado obscuro se destaca mais que o ator para o qual trabalha – e que, também por isso, vive frustrado. Booth é complexo e irresistível de continuar assistindo. Os dois são, o Booth de Pitt e o Dalton de DiCaprio, como é também a Sharon Tate de Margot Robbie, ainda que com muito menos tempo de tela.

É versátil, como é Pitt, um especialista em dividir tela e tempo com outros protagonistas. Após algumas péssimas decisões nos anos 1990, o ator aprendeu a se especializar naquilo que ele sabe fazer: movimentar-se como pede a personalidade, bater bola com outros protagonistas e admitir a vulnerabilidade que tende a tentar se esconder da tela.

“Estrelas de cinema são como pandas albinos, e ele é uma delas”, falou David Fincher, que dirigiu Pitt em ‘Se7en: Os Sete Pecados Capitais’, ‘Clube da Luta’ e ‘O Curioso Caso de Benjamin Button’. Ser um movie star não é necessariamente uma coisa de atuação, mas de presença. Pitt nasceu com essa presença e, aos 55 anos de idade, mais da metade deles dedicados ao cinema, sabe bem como chegar onde precisa com as armas que tem. Casa zoom, cada movimento dos braços, cada giro de cabeça e olhar aos lados revela alguma coisa.

É impossível saber o que Pitt fará em termos de atuação daqui para frente, quando ele mesmo já falou que vai aparecer menos nas câmeras, mas o combo ‘Era Uma Vez… Em Hollywood’ e ‘Ad Astra’ revela a absoluta força que se tornou. Felizmente, no próximo domingo, Hollywood irá agraciar o seu maior ‘mover’ com a primeira estatueta de atuação.

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